Em Niterói cultura sai das mãos de catadores

Programa pioneiro de coleta seletiva 'caça' raridades no lixo, como selos e mapas

Heloisa Aruth Sturm, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2012 | 11h38

RIO - Papel, plástico, vidro e metal. Para os catadores de lixo do Programa de Coleta Seletiva do Bairro de São Francisco, em Niterói, região metropolitana do Rio, separar os materiais em apenas quatro categorias é muito pouco. Por isso, adicionaram tantas outras à sua triagem pouco convencional: selo, foto, disco, mapa, moeda, partitura, livro. São objetos que mostram as riquezas culturais perdidas nas lixeiras espalhadas pelas cidades.

“Esse potencial de recolhimento de materiais de valor cultural é um aspecto da coleta seletiva que ainda não tem sido avaliado”, diz Emílio Maciel Eigenheer, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do programa. O trabalho - iniciado há mais de 20 anos e desenvolvido em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Centro Comunitário de São Francisco (Ccsf), a associação de moradores do bairro - formou um rico acervo que resgata a memória cultural da região.
 
Eingeheer explica que esses acervos de anônimos são formados por dois motivos: quando as famílias se mudam ou quando alguém morre e os herdeiros se desfazem dos objetos pessoais.
Sem um canal adequado para que esses materiais sejam reaproveitados, eles acabam indo parar no lixo. Somente no Centro de Memória Fluminense (Cemef) da UFF, são 6 mil livros vindos do programa. No centro está a Coleção Lourenço de Araújo, formada graças à iniciativa dos catadores em preservar correspondências, manuscritos, diplomas e documentos reunidos por uma família de escritores ao longo de nove décadas. 

O material estava em um apartamento desocupado que já pertencera a Araújo, frequentador do Café Paris, reduto de intelectuais e boêmios da cidade.

Mostra. Há outras raridades. Parte está reunida na mostra Resíduos e Memória, na Fundação Biblioteca Nacional, que estará em exposição em sua sede no centro do Rio até janeiro. 

São 40 objetos de valor histórico nacional, dentre eles o selo Olho de Boi, primeira chancela oficial emitida no Brasil, em 1843, moedas portuguesas e brasileiras a partir do século 14, medalhas emitidas pelo Centenário da Independência e pela participação na 1.ª Guerra Mundial e o livro Cozinheiro Imperial, o primeiro sobre culinária publicado no País, em 1881.

Reinaldo da Silva Soares é um dos cinco catadores do programa. Desenhista nas horas vagas, ele se entusiasma quando encontra livros de arte e histórias em quadrinhos. O projeto, pioneiro na implantação de coleta seletiva, em 1987, é autossustentável. Mantém-se com recursos da venda de de 22 toneladas de material reciclável e da venda anual de 1,2 mil livros para sebos. Além disso, tem um site ligado ao Centro de Informação sobre Resíduos Sólidos (CIRS) da UFF, em que as publicações são oferecidas a alunos, funcionários e professores da UFF e da Uerj.

Eigenheer lembra que uma bibliotecária paulista, após assistir à apresentação do projeto, resolveu averiguar as caçambas próximas do hotel onde estava hospedada no Rio. Achou dois livros do século 19. “O curioso foi ela ter começado a olhar para um lugar onde as pessoas não olham como fonte de cultura.”

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