Em outros países, chefes de governo não se envolvem tanto

Tão popular quanto Lula, uruguaio Tabaré Vásquez nem apareceu com seu candidato, que se elegeu

Patrícia Campos Mello e Ariel Palácios, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 00h00

Poucos países nas Américas tiveram presidentes tão engajados nas campanhas eleitorais de seus herdeiros políticos como o Brasil tem hoje, diz Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, respeitado instituto de pesquisas nos EUA. "O fato de o presidente Lula estar tão envolvido na campanha de Dilma Rousseff deixa o jogo desequilibrado", diz Shifter. "Mas isso não é uma anormalidade nem ameaça a democracia; em outros países, há sempre vantagem para o candidato da situação."

Na Argentina, o ex-presidente Néstor Kirchner concentrou todos os esforços para eleger sua mulher, Cristina Kirchner, em 2007. Ele participou ativamente dos comícios da candidata, que, embora não fizesse parte do gabinete do marido, também aparecia pela TV nos atos oficiais da Casa Rosada.

Cristina Kirchner, embora estivesse proibida pela legislação, utilizou o avião presidencial para sua campanha, além de usar a estrutura da assessoria de comunicação da Presidência para divulgar sua candidatura.

Já o vizinho Uruguai primou pelo respeito à risca das leis eleitorais. O presidente Tabaré Vázquez não apareceu em comício algum ao lado de seu candidato, o ex-guerrilheiro tupamaro José Pepe Mujica.

Na época os analistas destacavam que a presença de Vázquez, que desfrutava no fim de seu governo de quase 80% de imagem positiva, teria sido crucial para que Mujica vencesse o principal candidato da oposição - Luis Alberto Lacalle - no primeiro turno das eleições.

No entanto, seguindo a lei ao pé da letra, Vázquez optou por não aparecer ao lado de Mujica na campanha. O candidato não conseguiu vencer no primeiro turno e precisou disputar a segunda etapa. Vázquez só apareceu em um palanque ao lado de Mujica quando as urnas haviam sido fechadas e os números davam a vitória ao ex-guerrilheiro.

Na eleição americana de 2008, o candidato republicano, John McCain, passou a campanha evitando a companhia do então presidente George W. Bush. Em fim de mandato, Bush tinha menos de 30% de popularidade - e seu apoio só atrapalhava, ao contrário de Lula, que tenta emprestar a Dilma parte de seus quase 80% de popularidade.

Na eleição de 2000, o candidato Al Gore resolveu se distanciar do então presidente Bill Clinton, como o tucano José Serra vem fazendo em relação ao ex-presidente Fernando Henrique. Mas, para analistas, a estratégia de se afastar de Clinton por causa do escândalo Monica Lewinsky saiu pela culatra e pode ter custado a Gore votos cruciais.

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