Em Pirapora do Bom Jesus, ''''garimpeiros'''' vivem de sujeira do rio

Mulheres e crianças enfrentam espuma tóxica para conseguir renda extra com garrafas PET, plásticos, latinhas

José Maria Tomazela, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Moradores de bairros periféricos de Pirapora do Bom Jesus, a 50 quilômetros da capital, enfrentam as águas poluídas e cobertas de espuma do Rio Tietê para garimpar sucata no lixo que desce com a correnteza. Os "garimpeiros do Tietê" são, principalmente, mulheres e crianças de bairros carentes que desafiam o perigo e o risco de doenças para tirar do rio uma renda extra. O material - garrafas PET, plásticos, latinhas de alumínio, metais e embalagens de todo tipo - é amontoado, separado e vendido aos ferros-velhos e empresas de reciclagem. Muita coisa aproveitável, verdadeiros "tesouros" para os moradores, vai parar nos casebres e barracos da vila. O garimpo de Pirapora é resultado do lixão a céu aberto em que se transformou o Rio Tietê, sobretudo quando atravessa a cidade de São Paulo. A garimpagem ocorre logo abaixo da barragem, onde a água desce em grande velocidade e o turbilhão empurra o lixo para as margens cobertas de pedras. Com o material preso nas rochas, os catadores recolhem aquilo que interessa aos compradores. Quase sempre eles precisam entrar na água fedida e revolver a espuma para resgatar alguma sucata. O PET, principal produto do garimpo, é vendido a R$ 0,35 o quilo. Em um dia bem trabalhado, cada pessoa consegue catar até 30 quilos, o que rende R$ 10,50. A dona de casa Eva Conceição Nascimento, de 57 anos, conta que toda a sua renda sai do rio. "Não tenho aposentadoria nem outra forma de ganhar a vida." Três dos sete filhos também vivem da sucata do Tietê. "Mas é cada um por si", esclarece. Eva não usa luvas e entra no rio com os pés descalços, apesar das rachaduras no calcanhar que, às vezes, sangra por conta de cortes nas pedras. Quando sai do meio da espuma, ela usa a própria água do rio para lavar as mãos e as pernas, marcadas por uma espécie de óleo escuro. O par de chinelos de dedo também veio do rio. "Achei um pé e guardei. Logo o rio me trouxe o outro pé e formei o par." O menino Gustavo Henrique, de 12 anos, ajuda a mãe Clenilza Alves da Cunha na garimpagem. Ele já encontrou bolas e brinquedos quase novos. Na quinta-feira, apanhou no meio da espuma um batente de porta em bom estado. "Isso vai lá pra casa." Pedaços de madeira e compensado são úteis para os moradores cobrirem frestas nos barracos. Quando o rio tem bastante espuma, a empresa que administra a barragem liga uma espécie de chuveiro para diluir os flocos. "A gente aproveita para lavar o plástico no chuveirinho", conta o esperto Gustavo. Outro garoto, Maurício Assalin, de 15 anos, pegou uma geladeira "quase nova" no rio. Ele acredita que o eletrodoméstico rodou com alguma enchente. "Quando inunda em São Paulo, roda muita coisa boa para cá." Parte do dinheiro do garimpo ele entrega para a mãe. "Fico com um pouco para comprar roupa e tomar lanche." A maioria dos moradores do Bairro da Barragem, um núcleo de barracos e casas simples que sobem pela encosta do vale, vive dessa atividade. O líder comunitário Mário César da Cunha, de 36 anos, trabalha para formar uma associação de catadores. Ele pediu à prefeitura a cessão de um terreno com galpão. "Com um pouco de estrutura, a gente pode conseguir luvas e botas para o pessoal."Cunha trabalha com a família no garimpo e acredita que, unido, o grupo pode conseguir mais renda. "Se pudermos fazer a separação do material, o potencial de ganho de cada família pode chegar a R$ 600 por mês." Na Vila das Casinhas, do outro lado do rio, também é feita a coleta. Apesar das condições insalubres do trabalho, Cunha acredita que o garimpo contribui com o meio ambiente. "Tiramos do rio uma parte do lixo que vai poluir mais para baixo." Ele acredita que a coleta se restringe a menos de 10% do que as águas carregam. "Se tivesse jeito de instalar uma tela ou rede no rio, a gente poderia aproveitar melhor o material."

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