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Em Regência (ES), só sobrou cartão de ajuda da Samarco, que divide a cidade

Enxurrada de lama também levou o lazer e os turistas da vila; empresa diz atualizar o cadastro de afetados

Isabela Palhares, Enviada especial

05 Novembro 2016 | 03h00

REGÊNCIA - Em uma tarde de terça-feira, José Sabino, de 52 anos, organizava as redes de pesca no quintal de casa em Regência, distrito de Linhares com apenas 1,2 mil habitantes, no Espírito Santo. Elas não são usadas há 12 meses, desde que a pesca no Rio Doce e no mar foram proibidas após a chegada da lama da Samarco. A lama que carregou rejeitos, também levou embora o lazer e os turistas da vila.

Pescador desde os sete anos, Sabino não se conforma em ficar longe da água e sem trabalho. Arrumar as redes o faz esquecer por alguns minutos da sua nova realidade. "Fui criado para trabalhar, não sou homem de ficar no sofá na frente da televisão. Nunca imaginei que ficaria em casa no meio da tarde", disse Sabino. Com a pesca, ele tinha uma renda de R$ 4,5 mil a R$ 6 mil e conseguiu colocar os dois filhos mais velhos na universidade. Agora, recebendo apenas o cartão de auxílio financeiro da Samarco, de cerca de R$ 1,5 mil, não pode mais pagar as mensalidades e os filhos tiveram de trancar o curso. 

Sabino também é dono de uma roça em uma pequena ilha no Rio Doce, onde plantava cacau, feijão, milho e batata para complementar a renda. A lama inundou a ilha, matando a maioria das plantas. "Até a minha roça, que poderia ser uma alternativa para mim nesse momento difícil, me tiraram."

Marcelo Alves, de 39 anos, nasceu em Regência e desde menino saia para pescar todos os dias com o pai. Todo seu sustento dependia do que pescava, mas ele não conseguiu o cartão de auxílio financeiro da Samarco. "Disseram que eu não tenho perfil (para receber o cartão). Não sei nem o que é esse perfil". Sem nenhuma fonte de renda, ele depende financeiramente do irmão, também pescador e que conseguiu o cartão.

Como nem todos recebem o auxílio, a vila passou a conviver também com conflitos e desconfiança entre os habitantes. Alguns não concordam que os comerciantes e profissionais que viviam em função do turismo também recebam o cartão.

Até agosto, só os pescadores recebiam o auxílio, mas os comerciantes se organizaram e fecharam a estrada que dá acesso à vila para pressionar a empresa a também dar a eles a ajuda. Com o protesto, conseguiram. De acordo com a Samarco, em Regência o cartão foi distribuído para 286 famílias - 65% delas são de pescadores. 

O empresário Sergio Missagia, de 45 anos, foi um dos que participou do protesto e conseguiu o cartão. Ele morou nos Estados Unidos por cinco anos para juntar dinheiro e conseguir construir uma pousada em Regência. Em quatro anos, construiu 31 chalés e já planejava ampliar a pousada quando a lama chegou. "A vila estava despontando como um novo destino turístico, os moradores se organizavam para receber esses turistas. Quando a lama chegou, além dessa perspectiva ter ficado distante, ainda dividiu a cidade", contou.

Segundo os moradores, Regência era procurada por surfistas e pessoas que queriam ter contato com a natureza. Nos últimos anos, a vila passou a ser procurada não apenas por capixabas, mas também por turistas de Minas Gerais, Mato Grosso e alguns do exterior. Para o réveillon do ano passado e o carnaval deste ano, Missagia tinha todos os quartos reservados. Com a chegada da lama, todos os hóspedes cancelaram. "Não quero receber cartão, eu quero poder voltar a trabalhar e ter a perspectiva que a gente tinha antes da lama chegar", disse Missagia.

Vasconcelos Zuqui, de 41 anos, pediu demissão da faculdade onde dava aula um mês antes da lama chegar à Regência. "Havia uma perspectiva muito boa para o turismo e eu queria dar qualidade de vida para o meu filho recém nascido. Imaginei que aqui fosse o lugar perfeito", contou. 

 



Para atrair mais turistas, Zuqui reduziu o valor das diárias e faz promoções. "O que iria nos ajudar mesmo era ter mais informações. Novas análises da qualidade da água do mar e do rio, estudos de impacto. Assim, as pessoas ficariam tranquilas de voltar para cá", disse. 

O mecânico Marcelo Cubas, de 41 anos, era dono de uma oficina e praticamente só trabalhava aos finais de semana e feriados quando os turistas deixavam os carros para manutenção e conserto enquanto se divertiam na praia de Regência. Sem carros para arrumar e sem "perfil" para o cartão, ele já pensa em deixar a vila no próximo ano. "Eu amo esse lugar, meu sonho era envelhecer aqui. Mas não tem mais como viver por aqui, até meu filho de 12 anos está abalado com tudo isso."

Em nota, a Samarco informou que os levantamentos feitos após o acidente foram utilizados para a tomada de "decisões emergenciais". A empresa informou que, conforme prevê o Termo de Transação de Ajustamento de Conduta (TTAC), assinado em março, já está sendo feito um Programa de Levantamento e Cadastro de impactados definitivo. "Um de seus objetivos é levantar informações socioeconômicas sobre o núcleo familiar e identificar atividades e bens impactados, a fim de viabilizar o adequado encaminhamento", disse em nota. 

 

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