Em São Luís, casarões históricos ameaçam desabar

Degradados, 2 ruíram com as chuvas dos últimos dias

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

Declarado em 1997 Patrimônio Mundial pela Unesco, o Centro Histórico de São Luís enfrenta hoje todo tipo de dificuldades para manter suas características seculares, seus azulejos originais e até boa parte dos casarões, muitos deles construídos ainda no fim dos anos 1700.Proprietários dos prédios e até o governo do Maranhão teimam em transformar alguns em estacionamento, outros ameaçam cair - dois, de fato, desabaram por causa das chuvas dos últimos dias, ambos na Rua da Palma. Ao todo, 1.440 imóveis estão na lista dos tombados.O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério Público fecharam os imóveis que eram usados irregularmente para guardar carros. Agora, vão mover ações criminais contra os responsáveis pelos danos. "Eles terão de pagar por ter danificado um patrimônio público, de uso comum", disse Kátia Bogéa, superintendente do Iphan no Maranhão. A ação criminal contra o uso dos imóveis como estacionamento se torna possível porque os prédios têm de ser arrasados para dar lugar aos carros. E isso a legislação proíbe.Outros tipos de uso para os imóveis que serviram de residências ou abrigaram as repartições públicas do passado podem ocorrer e são até aconselhados. O Iphan, por exemplo, incentiva a transformação dos imóveis em pousadas ou residências coletivas e sociais, fórmulas já usadas em grandes projetos de conservação mantidos por França, Itália e Espanha em suas áreas históricas e tombadas. "Pode-se sacrificar uma parede, uma parte ou outra, mas não pode descaracterizar o original. Não pode matar o sentido da existência do imóvel", afirmou Kátia.Ela citou o exemplo do casarão onde funciona hoje o Iphan como exemplo de uma recuperação e restauração funcional e dentro da legalidade. Vários banheiros, novas salas e até um elevador tiveram de ser construídos, escadas e paredes foram reformadas, mas o prédio não perdeu quase nada de suas características originais. O Iphan fica no Solar da Baronesa Anajatuba, na Rua do Giz. Foi recuperado em 1988, pelo então presidente José Sarney, que é do Maranhão. Na época, São Luís ainda não havia sido declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco."Uma forma de preservar é manter a ocupação. Abandonado, o imóvel tende a desaparecer", ensinou Kátia Bogéia. Nesse sentido, o Iphan fechou nesta semana com o Ministério da Educação um convênio para que o prédio da antiga Fábrica de Tecidos Santa Amália seja transferido para a Universidade Federal do Maranhão, onde serão ministrados os cursos de Hotelaria e Gastronomia. O casarão tem 9 mil m² e fica na Rua das Crioulas, tendo ao fundo a Fonte das Pedras.A luta pela recuperação dos imóveis é dura. Na mesma Rua do Giz, onde funciona o Iphan, muitos dos casarões ameaçam desabar, sempre por falta de conservação e de ocupantes. Muitos estão tomados pelas trepadeiras e num, cujas paredes estão cobertas por antigos e valiosos azulejos portugueses, nasceu até um arvoredo. Isso ocorre porque as paredes dos prédios antigos normalmente são feitas de pedra, terra e argamassa à base de cal. Os pássaros pousam ali, depositam as sementes e elas germinam, fortalecidas pela terra com cal, um dos melhores fertilizantes ainda hoje utilizados nas plantações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.