Em SP, 100 pedidos de ilegais por dia

Boa parte recebe ajuda no Centro de Apoio ao Imigrante, para dar entrada na documentação necessária

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

Hilária Flores, de 27 anos, há quatro deixou os campos de coca da Bolívia, com os três filhos e o marido, atraída por uma oferta de trabalho no Brasil. Ilegal, acabou escrava de uma confecção no Brás. Durante dois anos, o casal se debruçava sobre máquinas de costura 16 horas por dia, das 7h às 23h, em troca apenas de comida e de um teto para a família morar. Nos domingos de folga, permaneciam entocados, escondidos da polícia e com medo do patrão. Ele recomendou que ficassem em casa, para não lhe dar problemas. Ontem, Hilária exibia os poucos dentes dourados num sorriso largo de quem vislumbra vida melhor pela frente.

O passaporte para o futuro, que ela segurava forte entre os dedos calejados, se chama registro provisório. Permite ao estrangeiro ilegal trabalhar no Brasil enquanto aguarda o registro permanente, que o governo promete emitir dentro de dois anos àqueles que comprovarem ter trabalho fixo e um vínculo com o País. Hilária tem mais do que isso: a filha de 3 anos nasceu em solo nacional. Mesmo assim, Hilária não consegue creche para deixá-la. "Eles dizem não ter vaga, pero yo desconfio que és porque no quieren hijos de imigrantes ilegais no colégio", afirma, num portunhol típico de quem, mesmo morando aqui há anos, teve pouco contato com brasileiros. "Vivemos em guetos. Agora, tudo será mais fácil", acredita.

Desde 2 de julho, quando foi sancionada a lei de anistia a estrangeiros em situação irregular, que ingressaram no País até 1º de fevereiro, mais de 4.200 ilegais que vivem na capital procuraram o Centro de Apoio ao Imigrante, no Canindé, para dar entrada na documentação. A média é de mais de cem pedidos por dia, a maioria da Bolívia, Paraguai e Peru. No centro, recebem ajuda aqueles sem acesso à internet. São os pobres dos pobres, pessoas das classes sociais mais baixas, vindas de países sul-americanos com menos oportunidades do que o Brasil, muitas vezes por agenciadores em busca de mão de obra barata, não raro escrava, para oferecer a pequenas indústrias informais. O setor têxtil é o que mais emprega esses imigrantes em São Paulo. "Mais de 90% dos que nos procuram trabalha em confecções. Eles são a ponta mais frágil da cadeia produtiva", diz o coordenador do centro, Paulo Illes.

Muitos destes imigrantes se tornaram empregadores de outros tão ilegais quanto eles. Carlos, de 32 anos, que pediu para não ter o sobrenome revelado, está há oito no Brasil. Durante os primeiros seis anos em São Paulo, morava e trabalhava em uma confecção em Guarulhos por minguados R$ 180 mensais. Hoje, divide o trabalho por conta própria com outros dois bolivianos aos quais se juntou. Quando o volume de trabalho aumenta, emprega provisórios por curto tempo e ainda mais curta remuneração. Ao legalizar sua situação no Brasil, o ex-policial boliviano pretende se tornar um empresário do ramo no País. "Tenho muito a aprender e quero estudar. Como ilegal, isso me era negado. Tentei fazer cursos no Senai, mas fui rejeitado", diz.

Voltar a estudar é também o desejo da paraguaia Mirna, de 20 anos, há três no País. Ela terminou o ensino médio em Ciudad del Este. Sem conseguir emprego, atravessou a fronteira e, meses depois, estava sentada à frente de uma bordadeira em uma confecção do Bom Retiro. Dos pais, ele porteiro e ela dona de casa, ficou a saudade. Quando tentou revê-los, foi obrigada a pagar uma multa por estar com o visto brasileiro vencido. Mais do que um emprego, esses imigrantes querem ter a liberdade de voltar aos seus países e rever aqueles que a pobreza os obrigou a deixar para trás.

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