Em tempos modernos, alfaiate retoma tradição

João Carlos Camargo Júnior atende um público seleto; corte exato, qualidade e preço alto marcam serviços para jovens (muito) exigentes

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2009 | 00h00

Representante da nova geração de alfaiates, João Carlos Camargo Júnior, de 34 anos, tem 1,80 m e um corpo atlético de quem se dedica ao jiu-jítsu - muito diferente dos senhores arqueados que trabalhavam sozinhos debruçados sobre suas máquinas de costura. Camargo lidera uma fábrica de roupas sob medida, com cerca de 500 funcionários, e a poucos metros dali, trajando sempre terno e gravata, recebe pessoalmente os clientes na sua loja do Itaim, zona sul de São Paulo, uma espécie de butique masculina, que vende sapatos, camisas, casacos e ternos, tudo sob medida.A lista de clientes é longa, 2,5 mil nomes, de jovens paulistanos abastados a famosos como Luciano Szafir e o ator Rodrigo Lombardi, o Raj da novela Caminho das Índias. O sucesso de Camargo vem na onda de personalização do mercado em geral, e as roupas não ficam de fora. Exemplo é o estilista fashionista Ricardo Almeida - que veste empresários como João Paulo Diniz e Alexandre Accioly -, que hoje tem como carro-chefe das três lojas próprias os ternos sob medida. Camargo abre sua segunda butique neste mês, nos Jardins. E, para o ano que vem, estão previstas mais duas, uma em Alphaville, na Grande São Paulo, e outra em Brasília.A casa do Itaim funciona como um clube do bolinha. Um cliente passa para mostrar a nova namorada, com a desculpa de comprar gravata; outro aparece para comentar a luta da noite passada; e há o noivo que surge com os padrinhos para provar os ternos do casamento - custam a partir de R$ 1.990. De quebra, recebem dicas de beleza. "Tem coisas que os homens têm vergonha de perguntar", diz Luciano de Moraes, de 42, vendedor e assessor de imagem. "Digo para deixar a pele descansar da lâmina ao menos três dias antes do casamento."Camargo indica o corte certo para cada tipo físico. "Quem tem rosto quadrado deve usar camisa com colarinho mais pontudo e ovalado." Aos muito altos, o jovem alfaiate indica ternos com calça e paletó de cores diferentes. Aos baixos, tudo da mesma cor, com jaleco mais curto. "Não entendo nada de terno", diz Vitor Sahyoun, de 23 anos. "Venho aqui porque confio no João." Como descobriu Camargo? "Meu primo falou para meu irmão, que me trouxe." Vitor é do tipo marombado e tem dificuldade de achar ternos que caiam bem. "É comum, exercitam peitoral e braços, daí não cabem nos modelos prontos", diz Camargo, que sugeriu a Vitor um terno de lapela menor. Camargo cresceu vendo o pai comercializar roupas masculinas. Nos períodos de dureza, chegou a vender sorvete, conta a mãe, Vera Lucia Perossi. Foi por pouco tempo. "Com os alfaiates das lojas, do meu pai e por onde trabalhei, aprendi a costurar", diz ele, que trabalhou na Bruno Minelli (loja famosa na década de 1980) e com Ricardo Almeida. "Imagine meu susto quando peguei meu filho costurando", diz Vera, que não é do métier. "E não é que ele fez sucesso?"

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