Em todo continente, relatos de 'um panorama desolador'

Ataques contra jornais, golpes, censura e crimes são exemplos de casos relatados durante as reuniões da SIP

O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2011 | 03h04

Ao abrir as sessões da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP, ontem pela manhã, o jornalista uruguaio Claudio Paolillo, presidente da comissão, resumiu o que vinha pela frente: "Um panorama francamente desolador". Ele se referiu às 21 mortes de jornalistas ocorridas nos últimos seis meses, nos países filiados à SIP, "quase uma por semana". Atacou o "aparato extraoficial" que se montou em alguns países para impedir que se divulguem notícias contra os governos "que têm legitimidade de origem, pois foram votados, mas têm ilegitimidade de exercício".

Paolillo lamentou os golpes na Argentina, onde os dois maiores jornais, Clarín e La Nación, receberam em 2010 apenas 2,5% da publicidade oficial. Recordou que na Venezuela há mais de 30 emissoras de rádio e de TV fechadas e abordou a onda de crimes em Honduras e no México. Completando o cenário, revelou que, na Bolívia, "cerca de 90% dos editores admitem, em público, que fazem autocensura para não enfrentar problemas maiores".

O ano de 2001 "foi muito turbulento na Argentina", resumiu o delegado desse país, Daniel Dessein, abordando a decisão do governo Cristina Kirchner de concentrar a publicidade oficial em veículos governistas ou outros sem expressão na sociedade. Detalhou "as agressões verbais e o clima opressivo" contra jornalistas. Se isso prosseguir, advertiu, "o país terá cada vez mais débeis contrapesos institucionais".

Mas foi o Equador que roubou a cena no salão do Swissotel. Seu representante, Pedro Zambrano, listou numerosos casos de ataques do presidente Rafael Correa contra jornais, colunistas e repórteres. Ele lembrou que avança no Congresso do país a criação de um conselho de comunicação que terá sete membros - três indicados pelo governo. E denunciou a "guerra" em andamento entre Correa e o jornal El Universo, do qual ele pede na Justiça uma indenização de US$ 40 milhões, por danos morais.

O episódio começou em fevereiro, quando o colunista Emilio Palacio publicou um artigo que o presidente considerou ofensivo. Ameaçado, Palacios decidiu exilar-se em Miami. O dono do jornal, Carlos Perez, enfrenta o caso na justiça equatoriana.

Presente na sala, ontem, Perez subiu ao palco e deu seu testemunho. "O presidente me diz que suspenderia o processo se pedíssemos perdão", contou. "Mas pedir perdão seria falhar numa obrigação moral e aceitar a autocensura", completou, sob uma salva de palmas. Ele informou que pretende levar o assunto à União Europeia e ao Congresso dos EUA.

"Na Venezuela está em marcha um golpe constitucional contra os direitos fundamentais", resumiu o delegado do país, Gilberto Urdaneta. Entre suas denúncias, contou que jornalistas do El Nacional têm seu e-mail invadido, falou dos eventuais ataques contra jornalistas nas ruas e lembrou que o jornal Sexto Poder foi condenado por publicar foto de Chávez na cama, doente. / G.M.

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