Em três horas, promotoria tenta convencer júri do Caso Richthofen

Nas três horas que usaram para defender sua tese ante ao 1º Tribunal do Júri de São Paulo, os promotores do Caso Richthofen tentaram convencer os jurados da tripla qualificação do crime cometido por Suzane von Richthofen e os irmãos Daniel e Christian Cravinhos, réus confessos do assassinato dos pais dela, Manfred e Marísia, em outubro de 2002. Após o intervalo de uma hora para o almoço, será apresentada a tese da defesa. O assistente da acusação, Alberto Zacarias Toron, último da equipe a falar, fez uma argumentação mais técnica, esmiuçando as qualificações dos crimes, por motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa das vítimas. "Nós precisamos dizer em alto e bom som que acreditamos na Justiça e Justiça hoje é condenar os três por homicídio triplamente qualificado". Ao fim de sua argumentação, a sessão foi suspensa por uma hora. A expectativa é que a sentença seja proferida por volta de uma hora da madrugada de sábado.Em sua argumentação de duas horas o promotor Roberto Tardelli acusou o casal de ex-namorados de ter planejado junto o assassinato dos pais dela, Manfred e Marísia von Richthofen. "Os dois estavam juntos nessa. Era o casamento perfeito entre o cérebro e a coragem". Tardelli classificou o crime como "um dos assassinatos mais sórdidos e macabros a que se tem notícia". Para o promotor, que disse anteriormente que vai pedir uma pena de 50 anos para cada um dos réus, se a justiça funcionar, "eles ficarão na cadeia até depois de 40 anos".Após terminada a argumentação de Tardelli, o promotor Nadir de Campos Junior tomou a palavra. Nos 40 minutos que falou, levou Daniel Cravinhos a chorar, ao dizer que o que ele fez "é asqueroso". Exaltado, o promotor fez gestos imitando os golpes dados no casal Richthofen. Emocionado e chorando copiosamente, Daniel levou às mãos ao rosto e foi consolado por seu irmão, Christian. O advogado dos Cravinhos, Geraldo Jabur entregou um lenço para seu cliente, que foi retirado do plenário, acompanhado do irmão, a pedido da advogada Gislaine Jabur.Nadir voltou a citar o espírito Negão, que Tardelli ridicularizou em sua exposição e disse que Suzane precisa admitir sua culpa. O espírito, citado por Suzane em seu depoimento e que teria dominado Daniel para que as mortes acontecessem. Tardelli disse considerar a história fantasiosa e "uma forma de dizer que o crime foi cometido por uma gentalha". Uma coincidência levou o plenário a dar risada. Ao falar que o espírito apareceu, o promotor Nadir, que é negro e estava fora da sala, entrou e ficou de frente para Tardelli. "O senhor apareceu bem no instante que eu citava o espírito Negão", brincou Tardelli com o outro promotor.Depois de Nadir, quem tomou a palavra foi o assistente da acusação, Alberto Zacarias Toron. Com o início da fala do terceiro promotor, os irmãos Cravinhos voltaram ao plenário e Christian continuou consolando Daniel. Ele tirou um lenço do bolso e o entregou ao irmão. Os dois ficaram de mãos dadas. Falando sobre a família, Toron disse que o crime foi uma inversão de valores. O promotor disse ainda que a maconha não leva ninguém a matar os pais e que os três réus merecem penas iguais.O advogado de Suzane, Mário Sérgio de Oliveira, afirmou que Tardelli foi sereno e se manteve dentro do que está no processo, assim como Toron. Mas na avaliação de Oliveira, Nadir ofendeu as pessoas que acreditam no espiritismo e desrespeitou a dignidade humana dos irmãos Cravinhos. Durante a apresentação da acusação, o promotor ironizou o fato de Suzane dizer que se envolveu no assassinato de Manfred e Marísia influenciada pelo espírito Negão, que tomava conta de Daniel e a mandava escolher entre ele e os pais.Suzane choraNo início da sessão, Suzane, sentada de frente para os jurados, ao lado de Daniel e Christian, chorou ao ouvir Tardelli falar sobre a importância da família, dos filhos. O Ministério Público Estadual pedirá condenação de 50 anos para cada réu - 25 pela morte de Manfred e 25 pela de Marísia von Richthofen.Em sua argumentação, Tardelli afirmou que os réus merecem ser condenados por terem participado de "um dos assassinatos mais sórdidos e macabros a que se tem notícia". Ao exibir aos jurados os sacos plásticos colocados na cabeça da Marísia e uma mala cortada por Daniel, Tardelli pediu que os acusados pegassem o objetos. Os três, mantendo as cabeças abaixadas, se recusaram. Com uma hora e meia de atraso, devido a um problema oftalmológico do advogado de defesa de Suzane von Richthofen, Mauro Nacif, foi retomado por volta de 11h30 o julgamento da jovem e dos irmãos Daniel e Christian Cravinhos, com a argumentação do promotor Roberto Tardelli. EstratégiasOs advogados dos réus, em seguida, também terão três horas - provavelmente, metade para cada defesa. Geraldo Jabur dirá que Daniel foi induzido por Suzane a cometer o crime e que Christian entrou na história por amor ao irmão. Mauro Otávio Nacif sustentará a versão da moça rica, virginal, obcecada pelo então namorado interesseiro e envolvida na trama por ele. Também haverá uma hora de réplica e outra de tréplica. Em seguida, será feita a votação dos jurados, que se reunirão em um sala secreta por aproximadamente uma hora, e somente depois será dada a sentença.BombaMauro Nacif foi o último a chegar ao Fórum Criminal da Barra Funda, por volta das 10h50 e afirmou que se não tiver duas horas e meia para expor seus argumentos pedirá a anulação do julgamento.Mais uma vez Nacif sustentou que apresentará um argumento "bomba" nos sete minutos finais do julgamento. De acordo com o advogado, não se trata de nenhum documento arquivado ao processo nem de uma carta psicografada que afirmaria que Suzane teria planejado o crime sob influência de algum espírito, como chegou a ser cogitado. Nacif disse apenas que se trata de um raciocínio lógico que será lançado logo após a suas argumentações no debate. A defesa de Suzane espera convencer os jurados que Daniel é o mentor do crime e assim tentar a absolvição da ré. "Tudo pode acontecer", disse Nacif. Gislaine Jabour, advogada dos irmãos Cravinhos afirmou que tentará a redução da pena para os dois irmãos e acredita que a pena de Christian será menor que a de Daniel. A defesa argumentará que os dois não têm a mesma participação no assassinato. A quinta-feiraO quarto dia do julgamento, nesta quinta-feira, 20, que começou ao meio-dia, com duas horas de atraso, foi o mais cansativo. No começo, quando foram exibidas fotos dos laudos necroscópicos de Manfred e Marísia, Suzane assoou o nariz algumas vezes. Segundo o advogado Mário Sérgio de Oliveira, ela chorou. A ausência de Nacif no plenário - ele teve de ir a uma clínica por conta de um descolamento de retina no olho esquerdo - levantou a suspeita de que se tratava de uma estratégia para atrasar o julgamento. Ele apareceu à tarde e passou o resto do dia com a cabeça inclinada para a esquerda. "São recomendações médicas. Mas isso não vai atrapalhar nada." A pedido da defesa da jovem, foram lidas 400 páginas de depoimentos, petições de seus advogados e cartas de amor dela para Daniel. O rapaz chorou durante a leitura de algumas cartas, mas ela não se emocionou. Depois, foram exibidos vídeos com a reconstituição do crime, um programa de televisão debatendo o caso e uma entrevista veiculada por uma rádio. Cálculo da penaNa sala secreta, os jurados ficam com dois papéis nas mãos - sim e não. O juiz faz a pergunta, um servidor público passa com um saco recolhendo os votos e entrega a ele. Em seguida, ele recolhe também os papéis não depositados, para que não se identifique a opinião de cada um. O magistrado conta os votos, os papéis são devolvidos e tudo recomeça. O júri responderá a uma série de quesitos, formulados pelo juiz, que abordarão a autoria dos crimes e as teses das defesas. Em seguida, serão questionados sobre as qualificadoras e circunstâncias atenuantes. Além do homicídio, os três respondem por fraude processual e Christian, também por furto. O juiz Alberto Anderson Filho decidirá então pela pena. O cálculo depende muito da linha de pensamento do juiz. A princípio, seria entre 12 e 30 anos. (Colaboraram: Laura Diniz, Roberta Penaffort e Ellen Fernandes)Ampliada às 15h45 com declaração de Mário Sérgio de Oliveira, advogado de Suzane

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