ED FERREIRA/ESTADÃO
ED FERREIRA/ESTADÃO

Em um dia, força-tarefa do MP de Goiás recebe 40 denúncias sobre João de Deus

As conversas informais ouvidas até o momento pelo Ministério Público de Goiás indicam que a investigação terá como ponto central o abuso sexual. Mas, além disso, será avaliada também a prática de outros crimes

Lígia Formenti, Priscila Mengue e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2018 | 20h45
Atualizado 11 de dezembro de 2018 | 01h12

ABADIÂNIA (GO) - A força-tarefa do Ministério Público de Goiás criada para investigar os casos de abuso sexual que teriam sido cometidos por João Teixeira de Faria, conhecido com médium João de Deus, recebeu nesta segunda-feira, 10, 40 contatos formais de mulheres que afirmam ter sido vítimas de abuso sexual. O MP e a Polícia Civil de Goiás começaram a agendar os depoimentos. 

No fim de semana já haviam sido registrados dois boletins de ocorrência contra o líder religioso, que faz seus atendimentos na cidade goiana de Abadiânia.

As conversas informais ouvidas até o momento pelo Ministério Público de Goiás indicam que a investigação terá como ponto central o abuso sexual. Mas, além disso, será avaliada também a prática de outros crimes. Nem Ministério Público nem Polícia Civil informaram quais seriam os demais delitos.

As duas instituições se preparam também para a possibilidade de pedir o fechamento preventivo da Casa Dom Inácio de Loyola, onde os atendimentos são realizados. “Temos ainda que avaliar os depoimentos que forem formalizados. Dependendo do que for constatado, essa hipótese não está descartada”, afirmou o coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público de Goiás, Luciano Meireles. A medida seria tomada para evitar a eventual prática de novos delitos.

As investigações serão feitas de forma simultânea pelo Ministério Público e Polícia Civil. Marcella Orçai, delegada de Goiás, afirmou que, além das novas denúncias, outros dois inquéritos contra João de Deus estão em curso. Um deles, de 2016, e outro, aberto neste ano. “Ambos estão em estágio avançado, e o desfecho deverá ser em breve”, afirmou.

Marcella atribuiu a demora na investigação dos dois casos à “complexidade” da investigação e também à resistência em uma das vítimas em continuar o inquérito. “Não é uma tarefa fácil. Há todo um trabalho de convencimento.” Questionado se houve demora na investigação da Polícia Civil, Meireles foi cuidadoso: “É preciso antes analisar o que foi identificado nos inquéritos abertos.” 

Nesta segunda, Polícia Civil e Ministério Público se reuniram para definir a estratégia conjunta de trabalho. Nesta terça, uma nova reunião deverá ser realizada. "A ideia é unir forças para que o caso seja elucidado da forma célere, ouvindo eventuais vítimas com a maior brevidade possível", disse Meireles.

Para tentar tornar mais ágil as denúncias, o Ministério Público de Goiás criou um e-mail específico para receber relatos das vítimas: denuncias@mpgo.mp.br. Relatos feitos no exterior também serão registrados. De acordo com Marcella, isso poderá ser feito nas embaixadas.

No caso de vítimas que moram em outros Estados, os depoimentos podem ser feitos diante da Polícia Civil ou Ministério Público das suas cidades. "No caso do MP, os relatos depois serão enviados para Goiás", disse Meireles.

Primeiros casos

As denúncias ganharam força depois de o programa da Rede Globo Conversa com Bial apresentar depoimentos de mulheres que buscaram atendimento espiritual com o líder e disseram terem sido abusadas. Os relatos apresentam vários pontos em comum: qual teria sido a estratégia adotada pelo líder para atrair as vítimas, o local onde o abuso ocorria e as ameaças feitas para as mulheres.

Embora os relatos de abusos tenham aumentado, promotores afirmam ser indispensável que vítimas formalizem suas denúncias. Além dos depoimentos, serão usados como prova laudos realizados por psicólogos. Meireles afirmou que, de acordo com o andamento da coleta de provas, casos semelhantes que já haviam sido arquivados poderão ser reabertos.

João de Deus passou a segunda-feira em São Paulo para se encontrar com seu advogado, Alberto Zacharias Toron. De acordo com o defensor, um ofício foi encaminhado para o Ministério Público e outros seriam enviados para a Delegacia de Polícia e o Fórum de Abadiânia informando que João de Deus está a disposição para esclarecimentos. “Ele volta para Abadiânia para exercer o trabalho dele, ajudando as pessoas como vem fazendo nos últimos 40 anos.”

Conforme o site de O Globo noticiou nesta noite, no documento protocolado na Justiça de Abadiânia, a defesa diz ter recebido “com indignação” as acusações. Assinado por Toron, o ofício registra que João de Deus “rechaça” o que classifica de “qualquer prática imprópria dos seus procedimentos”, como havia dito em respostas enviadas à TV Globo. O Estado não conseguiu contato com a assessoria de imprensa do médium.

São Paulo

Ao menos 30 denúncias foram levadas ao MP paulista, segundo a promotora Maria Gabriela Manssur. Como as investigações só começaram agora, não é possível dizer se há duplicidade de relatos com as denúncias feitas ao MP de Goiás. Ela considera que o número de casos de abusos pode chegar a 200 no País, segundo relatos em grupos de vítimas. No Estado, quatro promotores vão atender as autoras das queixas.

Presidente do grupo Vítimas Unidas, criado por vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih, Maria do Carmo dos Santos diz que as autoras de denuncias ainda estão sendo ameaçadas. “Muito mais vai aparecer.” Segundo ela, vítimas e apoiadores se organizam para garantir que João de Deus seja punido, diferentemente do que ocorreu em outras acusações esparsas. Em paralelo, ativistas lançaram a hashtag #OprahWeNeedYou (Oprah, precisamos de você) para cobrar um posicionamento da apresentadora Oprah Winfrey, que retratou o médium em programas da TV americana . “Cadê o movimento ‘Mexeu com uma, mexeu com todas’?”

A Federação Espírita Brasileira divulgou nota, dizendo que “o serviço espiritual não deve ocorrer isoladamente, apenas com a presença do médium e da pessoa assistida”. 

Vítima quase desistiu de processo

O delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes de Almeida, informou que João de Deus já respondia a quatro inquéritos anteriores por denúncias de assédio e abuso sexual. Ele disse que dois inquéritos foram instaurados em 2016 e outros dois foram abertos este ano, no mês de agosto. Ele confirmou que, em ao menos um dos inquéritos, o médium já foi ouvido.

Em 2010, uma ação foi aberta na comarca de Abadiânia pelo Ministério Público local. Segundo os autos, uma mulher relatou ter sofrido abuso sexual durante o “tratamento espiritual”. O réu foi, contudo, considerado inocente, pois a vítima sofria de síndrome do pânico, o que não a permitiria “distinguir a fantasia da realidade” no que se refere às acusações, segundo o magistrado. 

Marcella Orçai, delegada de Goiás, afirmou que dois processo, um de 2016 e outro aberto neste ano, “estão em estágio avançado e o desfecho deverá ocorrer em breve”. Marcella atribuiu a demora na investigação dos dois casos à “complexidade” da investigação e também à resistência em uma das vítimas em continuar o inquérito. “Não é uma tarefa fácil. Há todo um trabalho de convencimento.” 

Questionado se houve demora na investigação da Polícia Civil, Meireles foi cuidadoso: “É preciso antes analisar o que foi identificado nos inquéritos abertos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.