Em Veneza, turista de um dia não é bem-vindo

Prefeito estuda proibir a entrada ou cobrar taxa; a cada dia, visitantes dobram a população da cidade italiana

Tanya Gold, The Guardian, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Você esteve em Veneza neste verão? Notou a repulsa? Sentiu o ódio? Porque, caro leitor(a), ele é endereçado a você. Veneza está pensando em proibir os visitantes que só permanecem um dia. A cidade poderá cobrar uma taxa fixa para a entrada, ou talvez recusar a admissão de pessoas sem reservas em hotéis. Ela ainda não acertou os detalhes; só tem certeza de sua aversão por nós.

A cada dia, os turistas dobram a população de Veneza, de 60.028 habitantes, e os venezianos ficam de costas para os muros das vielas, olhando para nós com espingardas invisíveis. Por que eles nos odeiam? Será que deveriam nos amar? Perguntaram recentemente ao prefeito Massimo Cacciari se ele fecharia Veneza para turistas. "Sim", ele respondeu, "ou talvez um pequeno exame de entrada e uma pequena taxa". Eles têm um nome para isso em Veneza - o chamam de "raiva de beco".

Bom, eu tenho raiva de turista. Eu amo Veneza e ficarei triste quando a última torre afundar e emitir um pequeno barulho de "ciao"! Mas por que ela precisa ir assim - sem gratidão por todo o dinheiro que eu gastei em feias máscaras de Arlequim, comida ruim e um par de brincos que quebrou? É um amargo fim para uma história maravilhosa - uma ópera de Verdi terminando com uma ária de Andrew Lloyd Webber.

Quem são os venezianos? Se você simplesmente passar por Veneza, como faz a maioria das pessoas, imaginará que eles são pessoas enfezadas que vendem sorvete e, quando as águas estão altas, se divertem atirando turistas ao mar. Mas os venezianos não são vendedores de sorvete por direito de nascença. Eles fugiram dos bárbaros saqueadores que derrubaram o Império Romano, cruzaram a lagoa e construíram uma cidade. Eles se tornaram comerciantes fantasticamente ricos.

Em Veneza, o ódio é como um sorriso. Eles odeiam os viajantes que entram na cidade para apenas um dia, admiram São Marcos e deixam um pouco de lixo como agradecimento. E quando você vai a Veneza como turista, você tolera isso. A comida é detestável - a pior da Europa - e isto é a Itália, de modo que só pode ser de propósito. E todos os restaurantes fecham às 9 da noite.

Você é um turista e entra num barco em Veneza pagando 6,50. Se for um morador, paga 1,10. Se for turista e for a uma banca de tomates e escolher um, o vendedor o tirará de sua mão e lhe dará um tomate inferior porque está guardando os tomates decentes para os venezianos.

Eu culpo em parte os escritores de viagem. A ausência de carros deixa todos eles numa espécie de psicose em massa. Há mais metáforas cretinas escritas sobre Veneza do que sobre qualquer outra cidade na Terra.

Alguém precisa arrastar os venezianos para um divã. O problema não são as pessoas que querem ver a cidade afundando. É o mar. Veneza não sobreviverá ao aquecimento global - ela é a Bangladesh da Europa. Então nos deixe entrar, de graça, prefeito, e com gratidão, antes que vocês afundem. Ciao.

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