Em vez da ''caixinha'', festa e 14º salário

Para evitar constrangimento entre funcionários e moradores, prédios de alto padrão adotam práticas alternativas

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2008 | 00h00

Apesar de ser um costume de fim de ano, a caixinha de Natal começa a ser substituída por outras modalidades de gratificações. Festas, presentes e até cestas caprichadas com nozes, champanhe e outras gostosuras típicas dessa época são algumas das alternativas encontradas pelos síndicos de grandes condomínios. Em prédios de alto padrão, ela já foi substituída pelo 14º salário. "A tendência é evitar tanto a caixinha como a lista de contribuições em dinheiro", diz o advogado imobiliário Márcio Rachkorsky. "Elas são constrangedoras e muitas vezes causam problemas entre funcionários e condôminos."Nem sempre os moradores querem ou podem contribuir financeiramente, o que afeta a sua eficiência."Quando o sistema é de caixinha, há o risco de poucos participarem e a soma total ser muito baixa para ratear entre os funcionários", diz a professora de economia Iraci Torres, de 51 anos, síndica de um prédio no Brooklin, na zona sul. Com um sistema bem democrático de gerenciamento, ou seja, com várias comissões de trabalho, o edifício realiza uma festa de Natal para funcionários e seus familiares. "A churrasqueira e áreas livres ficam abertas para que os 25 empregados e prestadores de serviços aproveitem bons momentos com seus parentes no local onde trabalham o ano todo", diz Iraci. Eles ainda ganham cestas de Natal, e os filhos, brinquedos, roupas e livros. Ao todo, o condomínio gasta R$ 5 mil. Ainda há sorteios, patrocinados pelos fornecedores que trabalham ali, como empresa de TV a cabo e de manutenção de elevador. Entre os brindes, há batedeira e secador. "Os funcionários ficam muito felizes."Deixar de lado a lista de contribuições virou quase uma necessidade para a convivência pacífica entre funcionários e moradores. "Já tive de dispensar um empregado que se negou a ajudar uma senhora que entrou no edifício carregada de pacotes, porque ela não tinha participado da lista", conta Roberto Piernikarz, da BBZ, administradora de condomínios de alto padrão. "Alguns clientes optaram pelo 14º salário e proibiram listas e caixinhas."Rachkorsky, autor do livro Tudo que Você Precisa Ouvir Sobre Condomínios, diz que os moradores que dão contribuições superiores às dos demais ganham tratamento diferenciado."Tem gente que garante assim a reserva da melhor vaga da garagem, por exemplo."O CARTEIRORestam ainda as caixinhas do lixeiro, do carteiro, do entregador de jornal e tantos outros profissionais (veja quadro de dicas ao lado). "Uma quantia pequena, R$ 10, já resolve. Multiplique esse valor pelas centenas de casas por onde passam e verá que não é pouco", diz Claudia Matarazzo, autora de livros de etiqueta social. Os carteiros são a maior prova disso. "Em bairros nobres, como os Jardins, há quem tire até R$ 5 mil de caixinha", diz Manoel de Lima Feitosa, de 37 anos, diretor da Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios. "Os carteiros mais simpáticos e comunicativos se dão melhor."Em salões de beleza como o Studio W, nos Jardins, os funcionários são instruídos a não pedir caixinha de fim de ano. "Eles estão proibidos até de insinuar que esperam uma gorjeta maior. Aqui, o serviço já é caro e a comissão, boa", diz o proprietário, Wanderley Nunes, que recebe muitos presentes nessa época do ano. "Acho o presente uma forma carinhosa de agradecer os serviços prestados durante o ano. Mas não gosto de receber gorjeta. Quando isso acontece, repasso a quantia aos meus assistentes." Wanderley não tem do que reclamar. Essa semana ganhou US$ 1 mil de uma cliente americana. "Ah, não posso mentir, dessa caixinha bem que eu gostei."

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