Em vez de shopping e boate, casa de amigos

Jovens de Fernandópolis e Ilha Solteira mudaram seus hábitos

Chico Siqueira, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

No shopping de Fernandópolis, a 555 km de São Paulo, as sessões das 21 horas do cinema estão vazias e os bailes do clube não atraem mais os jovens. O toque de recolher, adotado há quatro anos pela Justiça, na tentativa de reduzir a delinquência juvenil, esvaziou a sala de cinema e fechou a boate. Mas os adolescentes encontraram alternativas para continuar se divertindo, mesmo com a proibição de permanecer nas ruas depois das 23 horas ou de frequentar bailes, boates e festas. As baladas e os encontros para paquera e namoro em locais públicos foram substituídos por reuniões nas casas dos amigos e por saídas para cidades vizinhas, onde não vale a medida."A cada semana a gente marca um encontro na casa de um colega. Jogamos baralho, comemos churrasco, tomamos cervejas e dormimos na casa deles, quando os pais não vêm buscar", conta Vilmar Brasil Dias Júnior, de 15 anos. "É lógico que seria melhor se tudo estivesse liberado como antes, mas tivemos de aprender a viver com essa situação."Em Ilha Solteira, onde a vigência do toque completa 40 dias, quando não se reúnem em casa dos amigos, os jovens vão para cidades vizinhas. "Sempre tem um irmão, maior de idade, que nos leva. Nossos pais sabem que saímos da cidade, mas aqui na Ilha estamos proibidos de nos divertir à noite", diz Fabiano Nascimento, de 17 anos.Mas a situação divide pais. "Acho a medida correta, meus filhos passaram a acordar mais cedo e aprenderam a ficar em casa. Prefiro que eles estejam na casa de um amigo a ficar na rua", diz o comerciante José Benedito Lourenço, de 44 anos, pai de um casal de adolescentes, de 17 e 18 anos. De acordo com levantamento da Polícia Civil e da Vara da Infância e da Juventude de Fernandópolis, desde maio de 2005 o toque de recolher reduziu em 80% os atos infracionais e em 82% as reclamações ao Conselho Tutelar. "Foi uma medida errada. Quem deve cuidar dos filhos é o pai e a mãe, não o Estado. Não quero que seja o juiz quem decida se minha filha pode ou não ir ao cinema, ao baile ou a um show", diz a encarregada administrativa Maria Iracilda de Oliveira, mãe de três filhos, de 11, 14 e 15 anos, e autora de uma carta aberta endereçada ao juiz de Ilha Solteira, Fernando Antônio de Lima, autor da portaria que estabeleceu o toque de recolher na comarca. "Acho essa medida absurda, mas é preciso pensar bem, porque a violência atualmente está muito alta e qualquer medida que visa ao bem-estar dos adolescentes tem de ser valorizada. É uma medida absurda, mas está dando certo por aqui", diz Ruimar Gripe, pai de duas meninas, de 11 e 13 anos. "Observamos que eles (menores) mudaram o comportamento, assim como os programas destinados a eles também estão dando resultados excelentes e os índices de criminalidade baixaram incrivelmente", declarou o juiz Evandro Pelarin, da Infância e da Juventude de Fernandópolis. "O que nós queríamos estamos conseguindo, que é fazer o jovem não dormir na sala de aula e não ficar em situação de risco nas madrugadas", disse o juiz Fernando Antônio de Lima, de Ilha Solteira. As medidas só são flexibilizadas durante grandes eventos na cidade.

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