Emendas apoiam turismo que não existe

Levantamento do 'Estado' revela destinação de recursos para fomentar setor em cidades sem vocação e uso para finalidades diversas

Vannildo Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

Porta de entrada do Rio Amazonas e palco do maior festival de boi-bumbá do País, Parintins está entre os 65 municípios brasileiros indutores do turismo e é a cidade mais visitada por estrangeiros no Estado. Mas em recursos federais ficou na quarta posição, com R$ 5,9 milhões recebidos da União nos últimos 15 anos, atrás de Manaus (R$ 85 milhões), Borba (R$ 7 milhões) e Rio Preto da Eva (R$ 6,5 milhões), onde a maior atração é a Feira da Laranja.

Esses são alguns dos exemplos emblemáticos de distorção e falta de critério na destinação de recursos para fomentar o desenvolvimento do turismo no País. Pesquisa realizada pelo Estado em duas fontes de recursos - o orçamento do Ministério do Turismo e as emendas parlamentares - mostra que, mesmo quando chega, o dinheiro não vai necessariamente para atividades turísticas e acaba servindo para tapar buracos de investimentos não feitos por outras pastas, como Cidades, Transportes e Integração Nacional.

O Portal da Transparência do governo federal mostra que, num período de 15 anos, a União investiu R$ 10,6 bilhões nas 27 unidades da Federação, mediante convênios do Ministério do Turismo. Aí estão incluídas as emendas de parlamentares, que engordam em quatro vezes o orçamento da pasta.

Em Alagoas, as maiores verbas do turismo foram para Barra de São Miguel (R$ 46 milhões), no litoral sul. Mas o dinheiro, em vez de fomentar empreendimentos turísticos, foi investido em saneamento básico e construção de um sistema de abastecimento de água. Como ainda faltaram recursos, o ex-deputado Augusto Farias (PSC-AL) descarregou suas últimas emendas para completar as obras.

O segundo lugar no recebimento de recursos no Estado foi Porto de Pedras (R$ 39 milhões), no litoral norte. O dinheiro foi todo investido na construção de uma rodovia e em pavimentação urbana. Quase nada foi destinado para atividades turísticas.

Presídio. Quando se fala em Aparecida de Goiás, a primeira imagem que vem à cabeça é a do centro penitenciário (Cepaigo), palco de sangrentas rebeliões. Em matéria de turismo, a cidade, na região metropolitana de Goiânia, é inexpressiva. Mas dividiu o primeiro lugar com Itumbiara, famoso centro turístico banhado pelo Rio Paranaíba. Ambas receberam R$ 18 milhões e deixaram para trás Caldas Novas (R$ 13 milhões), o maior polo turístico do Estado, além das cidades da Chapada dos Veadeiros, famosa rota do turismo ecológico.

Em Roraima, a desconhecida Mucajaí, cercada por savanas no meio do nada, vem em primeiro lugar, com R$ 10 milhões recebidos. O segundo lugar ficou com a singela Rorainópolis (R$ 8 milhões), município criado no sul do Estado a partir de um assentamento, na década de 70, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Longe dos principais atrativos da região, o Monte Roraima e o Rio Amazonas, a cidade é acanhada em matéria de turismo.

Luciano de Noronha, secretário de Meio Ambiente e Turismo de Rorainópolis, explicou que nem todo esse valor foi repassado e o que chegou foi aplicado em obras como a praça de apoio ao turismo, de onde partem caravanas para visitar a linha do equador, que passa a 100 quilômetros da cidade. A praça está em fase de acabamento e o município já começou a construir a feira de artesanato e produtos turísticos.

Ele disse que, em razão dos investimentos, o número de turistas vem crescendo, inclusive estrangeiros, atraídos pela pesca esportiva e o turismo de aventuras nas corredeiras do Rio Jauperi. Outro roteiro importante, a julgar pelos investimentos, é Ji-Paraná, município mais aquinhoado de Rondônia (R$ 7 milhões). O melhor programa da cidade é um mergulho nas águas dos Rios Machado e Urupá.

Águas barrentas. No Piauí, a maior fatia foi para Parnaíba (R$ 18 milhões), próxima aos Lençóis Maranhenses, um dos paraísos turísticos mais apreciados do País. O segundo lugar ficou com Floriano (R$ 12 milhões), cuja principal atração é um banho nas águas barrentas do Rio Parnaíba. Em Mato Grosso, o maior quinhão ficou com Rondonópolis (R$ 18 milhões). O município é pouco atrativo e se tornou entreposto de drogas dos países vizinhos por ser cortado por rodovias federais em direção ao Sudeste.

Distorção

Sem grande apelo turístico, Aracaju levou mais recursos (R$ 288 milhões) do que Rio de Janeiro (R$ 262 milhões) e São Paulo (R$ 253 milhões), os principais polos turísticos e de eventos do Brasil.

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