Empresa cobra vítima da Gol por compra feita após acidente

Agente da PF é considerada inadimplente; documentos e arma não foram devolvidos à família

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2008 | 00h00

Joana Batalha Ignácio, psicóloga e agente da Polícia Federal de Manaus, morta aos 28 anos na tragédia da Gol, é mais uma vítima da pilhagem às vítimas do vôo 1907. O controle financeiro das lojas Riachuelo informou ontem ao tio de Joana, o advogado Luiz Gonzaga Faria, que o nome da sobrinha consta do cadastro de devedores da empresa. De acordo com os registros contábeis da Riachuelo, ela está inadimplente há exatos 277 dias, pela compra não quitada no valor de R$ 109,14, que teria feito em Manaus, no dia 3 de janeiro, 65 dias após sua morte.O caso foi descoberto pela família da vítima no dia 18 de julho, quando a mãe de Joana, Maria de Fátima Batalha, recebeu em sua casa, em Belo Horizonte, um telefonema de cobrança. Espanto semelhante foi experimentado pela filha de outra vítima do vôo, em Brasília. Em 27 de junho, Catherine Rickli soube, também por telefone, que um falsário financiara um carro em nome de sua mãe, Maria das Graças Rickli, e não pagara. O Ministério Público do Distrito Federal mandou instaurar inquérito para apurar este caso. Faria, que mora em Santos e é também o advogado da família, diz que sua irmã, a mãe de Joana, ficou desorientada com a perda da única filha no acidente. Ele não tem dúvidas de que o golpe dado em nome da sobrinha, em Manaus, é resultado da pilhagem às vítimas. No caso de Joana, a bolsa enviada à mãe dela, em Belo Horizonte, continha a carteira com uma nota de R$ 1, a carteira funcional da Polícia Federal, a carteira de motorista e os documentos do carro. "É coincidência demais terem sobrado só os documentos desnecessários para se praticar fraudes no mercado. Carteira de identidade, CPF e cartões de crédito desapareceram", diz o advogado. Além dos documentos, Faria acusa o sumiço da arma e do coldre que Joana usava. Tudo estaria na mesma bolsa, mas só uma algema e a munição do revólver foram devolvidos à família. Em contato telefônico com a Riachuelo, ontem à tarde, Faria soube que, mesmo depois do comunicado da morte da sobrinha, Joana continua cadastrada como inadimplente. "Eles exigem que minha irmã vá a uma das lojas da empresa e apresente o atestado de óbito para dar baixa na dívida, mas eu a desaconselhei a fazer isto porque ela está muito abalada", conta o advogado, que viajou às pressas para Belo Horizonte no dia 19, para dar apoio à irmã. "Ela já estava fragilizada por causa do acidente com o vôo da TAM, que a fez reviver a tragédia da Gol." O Estado não conseguiu localizar ontem representantes da Riachuelo.A família Rickli teve mais sorte. Assim que a Finasa soube que financiara um carro para a vítima da Gol, encerrou o processo e considerou quitado o empréstimo de R$ 20,4 mil. Mesmo assim, o Ministério Público do Distrito Federal quer investigar o caso até o fim, para descobrir se os falsários usaram documentos pilhados ou se a fraude foi praticada por uma quadrilha que age com base em informações colhidas em certidões de óbito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.