Empresa que reformou telhado de igreja não tem registro no Crea

Entre as irregularidades cometidas estão também a execução da própria obra e o material utilizado, com amianto

Bruno Tavares e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

21 de janeiro de 2009 | 00h00

Era uma obra irregular, com uma empresa irregular que utilizou material irregular. Contratada por R$ 70 mil em setembro do ano passado para trocar as 1.600 telhas da sede internacional da Igreja Renascer em Cristo, cujo teto desabou na noite de domingo e matou nove mulheres, a Etersul Coberturas e Reformas Ltda. não tem licença do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo (Crea-SP) para funcionar. A reforma não foi informada à Prefeitura, como exige a legislação municipal. Para completar, foram instaladas telhas de um tipo de amianto (uma fibra) tóxico, que está proibido na cidade há cinco anos. "Foi a Igreja que pediu (esse material). Eles fizeram questão. As (telhas) de amianto são mais difíceis de encontrar. Proibição tem, mas vende", disse Daniel dos Anjos, dono da Etersul. Segundo ele, a Igreja, ao escolher as telhas de amianto, considerou a maior resistência do material. A Prefeitura ainda não estudou se a Renascer fica passível de multa por causa das irregularidades. O Crea confirmou que a Etersul nunca teve registro e repassou a informação ao Ministério Público, que apura os responsáveis pela tragédia. Sobre a licença, Anjos tripudiou. "Para trocar telha, não precisa ser cadastrado no Crea ou ser engenheiro", disse na sede da Etersul, no Jardim Prudência. "Qualquer peão troca telhas."Conforme o Estado mostrou ontem, os primeiros indícios mostram que a estrutura desmoronou por falta de manutenção, pequenas infiltrações e excesso de peso causado por ar-condicionado, aparelhos de som e de iluminação colocados no teto. Dias antes da tragédia, fiéis viram pedaços de gesso se desprendendo e pequenas goteiras. Um problema para os peritos é que, nos últimos dez anos, não foi feito nenhum laudo técnico atestando a segurança do local. O Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru), que concedeu alvará em julho de 2008, só checou os equipamentos de segurança.O último laudo foi feito em 1999 pelo engenheiro Carlos Freire de Andrade Lopes, depois de uma ampla reforma para reforçar a estrutura de sustentação do teto. Segundo ele, na época, não havia ar-condicionado, equipamentos de luz ou som. "É, sim, um absurdo um teto reformado há dez anos ruir", disse. "Mas faz dez anos que não sabemos o que foi feito lá."Em programa na Rede Gospel, o "apóstolo" Estevam Hernandes disse que a Igreja vai contratar dois peritos para "fazer uma investigação paralela".COLABOROU VITOR SORANO

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