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Empresário assume ser dono do ouro apreendido no interior de SP, mas diz que carga tem origem legal

Dirceu Sobrinho preside a Associação Nacional de Ouro e já foi alvo de ação do MPF por suspeita de extração ilegal de minério; tenente-coronel que atuou na Casa Militar do governo paulista também é investigado por fazer escolta do material

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2022 | 11h39

SOROCABA - O empresário Dirceu Santos Frederico Sobrinho disse que o ouro apreendido pela Polícia Federal na Rodovia Castelo Branco, no interior paulista, na quarta-feira, 4, pertence à sua empresa, a FD Gold. Em vídeo encaminhado pela assessoria de imprensa do empresário neste sábado, 7, ele afirma que a carga, de cerca de 77 quilos, tem procedência legal. Entre os quatro policiais que faziam a escolta do carregamento, estava o tenente-coronel da Polícia Militar Marcelo Tasso, que atuava na Casa Militar, ligado ao governo estadual. O Palácio dos Bandeirantes diz que Tasso está afastado. 

“Todo ele (o ouro) foi comprado sob permissão de lavra garimpeira concedida, e não pertence à área indígena, não pertence a garimpos ilegais e nós trabalhamos na minha empresa e em outras empresas para melhorar a atividade garimpeira em todo o Brasil há muito tempo, inclusive buscando o respeito da sociedade brasileira pela atividade garimpeira”, afirmou Sobrinho, no vídeo.

O empresário é filiado ao PSDB do Pará e concorreu à vaga de 1º suplente do ex-senador Flexa Ribeiro, quando o tucano voltou a se candidatar ao Senado em 2018 e não se elegeu. Sobrinho concluiu a mensagem em vídeo dizendo que suas empresas recolhem todos os tributos e encargos, que sempre recolheram. Ele afirmou ainda que continuará trabalhando “de forma digna e séria”.

A empresa FD Gold é alvo de ação judicial para suspender suas operações por suspeita de garimpo ilegal. A ação tramita na Justiça Federal de Itaituba (PA). O Ministério Público Federal (MPF) daquele Estado acusa a empresa de Sobrinho e outras duas empresas do setor de terem despejado no mercado nacional e internacional mais de 4,3 mil kg de ouro ilegal em 2019 e 2020. Só a FD Gold comercializou 1,3 tonelada de ouro, segundo o MPF, extraído de garimpos ilegais na região sudoeste do Pará.

Na denúncia, os procuradores da República afirmam que as permissões de lavra garimpeira informadas pela empresa de Sobrinho como origem do ouro incidiam sobre áreas de floresta, sem garimpos autorizados. A pesquisa concluiu que o ouro saiu de garimpos ilegais dos municípios de Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso, inclusive de terras dos indígenas mundurucus.

Na ação, o MPF pede que a FD Gold e as outras duas empresas paguem indenização superior a R$ 10 bilhões por danos sociais e ambientais. Conforme o MPF, outros inquéritos e investigações sobre a atuação da empresa de Sobrinho estão em andamento em caráter sigiloso. Questionada pela reportagem, a empresa não comentou os processos motivos pelo MPF. 

Sobrinho é também dono da D’Gold, empresa de garimpo, e presidente da Associação Nacional do Ouro (Anoro). Em abril, em entrevista à Rádio Jovem Pan, Sobrinho defendeu a legalização do garimpo em terras indígenas, o que é proibido por lei. “A lei não permite (extração em terras indígenas), é considerado um garimpo ilegal, mas existe há 50 anos e não existe garimpeiro em terra indígena que não tenha acordo com índio. Acredito que precisa ser legalizado, pelo bem do Brasil e pelo próprio índio”, argumentou.

Como presidente da associação, Frederico é presença frequente em Brasília e já se reuniu com ministros do governo Jair Bolsonaro para discutir questões relativas à mineração do ouro. Bolsonaro é favorável à liberação do garimpo em terras indígenas. No ano passado, a FD Gold assinou contrato com a Casa da Moeda, estatal vinculada ao Ministério da Economia, para o fornecimento de ouro usado na confecção de medalhas decorativas.

Em seu site oficial, a FD Gold informa que está presente nas principais regiões produtoras de ouro do Brasil, por meio de lojas próprias ou de mandatários mercantis que a representam para operação de aquisição do metal diretamente de garimpeiros, cooperativas de garimpo, mineradoras e demais membros da cadeia produtiva.

Sobrinho recorre a PMs paulistas para escolta

Filiado ao PSDB do Pará, Sobrinho não tem ligações com o PSDB de São Paulo, mas se relaciona com a cúpula da PM paulista em razão da atividade empresarial. Ele recorre com frequência a policiais militares de folga ou licença para sua segurança pessoal e para reforçar a escolta de carregamentos de ouro. Os quatro policiais, entre eles o tenente-coronel Tasso, que atuava na Casa Militar, foram convidados para fazer a escolta do ouro que chegaria a Sorocaba, por causa do alto valor da carga. A Casa Militar é responsável pela segurança do governador. 

Conforme o Palácio dos Bandeirantes, Tasso está afastado da função de segurança do governador desde outubro do ano passado, pois vai se aposentar e tinha licenças pendentes. Mesmo assim, ele teria informado ao governo que havia sido convidado pelo empresário para fazer a escolta e teria indicado mais dois policiais de sua confiança para o “bico”.

Presidente estadual do PSDB, Marco Vinholi informou que o empresário “não consta dos quadros do PSDB-SP e o partido não tem qualquer relação ou conhecimento de suas ações”. Procurado, o PSDB paraense não havia se manifestou até a conclusão da reportagem.

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