Empresário atropela motoqueiro, é perseguido e ferido pela polícia

Um homem de 71 anos joga o carro importado contra um motoqueiro por achar que ele era o ladrão que o assaltara havia 15 dias. Foge da polícia, bate em diversos veículos, trafega pela contramão de uma grande avenida e invade o pátio de uma delegacia com o carro, que foi atingido por pelo menos 35 tiros. Acaba ferido apenas na nádega direita. Parece filme, mas não é. Ocorreu nesta quarta-feira, na zona sul de São Paulo.O engenheiro e dono de uma construtora Nelson do Val, de 71 anos, estava com o carro importado na rua Bacaetava, quando viu o motoqueiro Marcos Alexandre da Silva, de 30 anos. Na garupa da moto, estava Paula Fernanda Ferreira, de 20 anos. Val diz que reconheceu o rapaz como o ladrão que lhe roubara R$ 5 mil. Foi um erro.Segundo o delegado seccional Sul, Olavo Reino Francisco, Silva é um "homem de bem". Val bateu o carro em cheio na traseira da moto de Silva, jogando o motoqueiro e a mulher no chão. Deu marcha à ré para fugir e bateu na fachada de uma loja de vidros. O engenheiro entrou numa avenida Morumbi e parou numa agência bancária. Silva e Paula tiveram ferimentos leves.Enquanto isso, outros motoboys avisaram policiais militares, que foram até a agência. Quando abordaram Val, ele saiu em disparada. Acertou a cancela do estacionamento do banco, mais três carros e seguiu para outra avenida, em alta velocidade.Vários carros da polícia iniciaram a perseguição, acompanhados de dezenas de motoboys. O engenheiro cruzou o canteiro da avenida e seguiu pela contramão da outra pista. Ao ser cercado pela PM, bateu de frente com um carro da polícia, deu marcha à ré e cruzou novamente o canteiro para retornar para a pista correta. Policiais fizeram diversos disparos em direção do veículo. A reportagem contou 35 perfurações espalhadas por todo o carro, até no pára-brisa dianteiro.Ao avistar o prédio do 96º Distrito e da Delegacia Seccional Sul - que ficam na mesma avenida -, o engenheiro cruzou novamente a pista e invadiu o pátio do DP. Bateu em mais dois carros da polícia estacionados no local. Acabou aí.Val foi socorrido no Hospital do Jabaquara, onde foi diagnosticado um "estresse pós-traumático", fora o tiro que ficou alojado na nádega. O engenheiro foi levado para a delegacia, onde foi indiciado por lesão corporal dolosa, danos ao patrimônio público e particular, evasão de local de acidente, resistência à prisão e desobediência. Todos esses crimes são afiançáveis.Ainda na tarde de hoje, ele foi levado para o hospital Albert Einsten de ambulância. Com o rosto coberto, não quis falar com os jornalistas. O filho do engenheiro, o administrador de empresas Antônio do Val, de 49 anos, apoiou a atitude do pai. "Não recrimino o que ele fez. Se parasse no meio da rua, ele estava morto", disse. Segundo ele, seu pai é vítima da violência. "Como se pode viver num país como esse?"O delegado seccional disse que os PMs atiraram apenas nos pneus do veículo. Segundo ele, um homem não identificado fez 14 disparos na direção do carro, da garupa de uma moto. O motoboy P.R.M., de 26 anos, disse à reportagem que uma pessoa se identificou como policial e o mandou perseguir o carro. "Ele atirou mesmo no pneu da frente, quando eu emparelhei", disse.Na saída, o filho do engenheiro agrediu o repórter fotográfico da Agência Estado, Sebastião Moreira. Após dar um tapa no braço do repórter, ele acertou um soco na máquina fotográfica, danificando o equipamento. E, de dentro da ambulância, gritou: "Eu pago essa porcaria."

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