Empresário cita propina para amigo de ex-ministro Barjas Negri

O empresário Ronildo Medeiros afirmou nesta quarta-feira à Justiça que depositou dinheiro de propina da máfia dos sanguessugas em contas de Abel Pereira, empreiteiro de obras públicas e amigo do ex-ministro da Saúde Barjas Negri (governo FHC).O advogado de Abel, que será ouvido pela Polícia Federal na próxima segunda-feira no inquérito que investiga o dossiê Vedoin, pelo qual petistas iriam pagar R$ 1,75 milhão, em dólares e reais, nega a existência desses depósitos e a ligação de Pereira com o esquema.Medeiros declarou ao juiz Jefferson Scheinneder, da 2ª Vara Federal de Cuiabá, que repassava a Abel o equivalente a 6,5% do valor de cada uma das ambulâncias vendidas a cerca de 500 prefeituras entre 2001 e 2002.Naquele período, Barjas exerceu primeiramente o cargo de secretário-executivo do Ministério da Saúde. Na seqüência, assumiu o posto de ministro, no lugar de José Serra, atual governador eleito de São Paulo, que na época saiu para disputar a Presidência da República.Medeiros é proprietário de duas empresas, a Frontal e a Medical Equipamentos Hospitalares. Investigação da Procuradoria da República e da PF revela que essas empresas teriam sido constituídas para forjar resultados de licitações.Desses processos de concorrência também participava a Planam, empresa central no esquema das ambulâncias superfaturadas que desfalcou o Tesouro em R$ 110 milhões.´Não existe depósito dos Vedoin´, reage advogadoO advogado Eduardo Silveira Mello Rodrigues, defensor de Abel Pereira, disse, por sua vez, que seu cliente jamais recebeu dinheiro de propina do esquema dos sanguessugas. "Não existe qualquer depósito dos Vedoin para Abel, quer direta quer indiretamente."Rodrigues destacou que o próprio Abel, preocupado com o envolvimento do seu nome no caso e com uma eventual cilada de inimigos, antecipou-se e fez uma varredura em todas as suas contas bancárias em busca de eventual depósito de origem desconhecida. "Não existe nenhum depósito em contas de Abel ou de parentes ou de amigos que o cercam."Abel Pereira é amigo de Barjas Negri, ex-ministro da Saúde na gestão FHC. Empresário da construção civil, Abel tinha livre acesso ao ministério. Barjas confirmou ter recebido pelo menos uma vez o amigo em seu gabinete. Na semana passada, a Justiça mandou apreender a agenda de Barjas para identificar quem freqüentava seu gabinete.Chocado com as revelações de Ronildo Medeiros, o advogado disse que está "começando a suspeitar que essa armação é ainda maior, porque parece que a invenção do dossiê vai mais além do que a plantação de provas falsas". Quando fala em armação ele se refere às denúncias de que seu cliente estaria envolvido na trama do dossiê contra tucanos.A Polícia Federal intimou Abel para depor segunda-feira. A PF não quer apenas saber do empresário se ele recebeu propinas do esquema das ambulâncias. Ele é suspeito de ter oferecido R$ 10 milhões pelo sumiço do dossiê Vedoin.Abel teria se reunido em agosto com Luiz Antônio Vedoin, líder da máfia dos sanguessugas. Há registros de que o empresário hospedou-se em um hotel em frente à sede da PF de Cuiabá. Um mês depois, homens do PT - Valdebran Padilha e Gedimar Passos - foram presos em São Paulo com o R$ 1,75 milhão. Abel nega participação.Acusado por Vedoin de ser o intermediário do esquema durante a passagem de Barjas pelo ministério, Abel diz não ter envolvimento com a máfia dos sanguessugas. O empresário também é investigado pela suspeita de que teria tentado comprar o silêncio dos donos da Planam antes da divulgação do dossiê, outro fato que ele nega.EmendasA Planam foi criada por Luiz Antonio Vedoin, a quem a PF e a procuradoria acusam formalmente de liderar a ação sanguessuga dentro do Congresso. Pelo menos 72 parlamentares, entre deputados e senadores, produziram emendas para a área da saúde propiciando liberação de recursos em série para administrações municipais.A PF e a procuradoria sustentam que Medeiros foi empregado da Planam. Para dar aparência de legalidade às licitações, Vedoin excluiu Medeiros de seu quadro de funcionários e o orientou a abrir a Frontal e a Medical.As empresas de Medeiros participaram de vários certames de compra de ambulâncias, vencidos pela Planam. À Justiça Federal, Medeiros disse ontem que fez os depósitos em contas de Abel por indicação de Darci Vedoin, pai de Luiz Antonio.

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