Empresário denuncia propina na campanha de Blairo Maggi

Dono de concessionária de caminhões diz que ex-secretário exigiu 5% do valor pago pelo governo na aquisição de máquinas

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2010 | 00h00

O empresário Pérsio Briante, dono da Extra Caminhões, concessionária em Cuiabá, denunciou ao Ministério Público do Mato Grosso suposto esquema de cobrança de propinas para financiamento da campanha do ex-governador Blairo Maggi (PR), candidato ao Senado. Perante força-tarefa do Ministério Público e da Polícia Civil, ele relatou detalhes sobre reuniões reservadas que teriam ocorrido com outros oito empresários do setor e Vilceu Marcheti, ex-secretário de Infra Estrutura do Estado.

Marcheti foi um dos coordenadores do programa MT 100% equipado - plano de Blairo para distribuir a prefeituras 705 máquinas com recursos do BNDES no montante de R$ 241 milhões.

Divulgado ontem, o depoimento de Briante foi dado em 24 de junho dentro de um inquérito aberto pela Delegacia de Polícia Fazendária. São 12 páginas. Segundo ele, Marcheti teria exigido 5% sobre o valor pago pelo governo na aquisição de caminhões, pás carregadeiras, motos niveladoras, escavadeiras hidráulicas, cavalos mecânicos e semi reboques.

O depoimento do empresário foi tomado pelos delegados Rogério Atílio Modelli e Alana Derlene de Souza Cardoso e pelos promotores Ana Cristina Barduco Silva e Mauro Zaque de Jesus. "Vilceu Marcheti disse que estava arrecadando o dinheiro que se destinava a subsidiar a campanha de Blairo", delatou Briante, há 27 anos estabelecido em Cuiabá. "Ele falou abertamente que os 5% deveriam ser entregues em dinheiro vivo." Segundo o empresário, o então secretário de Estado foi taxativo. "Ele disse que queria esse dinheiro e que era para eu me virar para pagar."

Briante disse que soube do programa MT 100% equipado em junho de 2009 e procurou setores da administração Blairo para obter mais informações. Segundo ele, houve diversos encontros com outros empresários interessados no negócio. Numa dessas reuniões decidiu-se pela divisão dos lotes no pregão, que ocorreu no dia 9 de setembro de 2009.

O empresário afirmou que Marcheti começou a pressioná-lo, "cobrando insistentemente o valor". Disse que viajou ao exterior "para fugir do assédio". "Ele ligava constantemente na minha empresa e deixava recados para eu ir conversar. Eu já não suportava mais a pressão e comecei a falar para diversas pessoas que estava sendo extorquido."

Briante disse que comentou o caso com um ex-secretário da Fazenda, que "o aconselhou a não pagar". Segundo a denúncia, o edital do pregão foi publicado "tendo por base o acordo fechado entre os representantes do governo e os fornecedores".

"Todo mundo estava satisfeito, aguardando a chegada dos caminhões, a entrega e o recebimento", declarou Briante. "Os orçamentos apresentados pela minha empresa para a formação do preço de referência já estavam majorados a fim de cobrir o pagamento da comissão exigida. Posso afirmar que todos os fornecedores já tinham os preços alinhados para não dar problema no dia do pregão." Ele disse que tomou R$ 15 milhões em duas instituições financeiras para pagar a fábrica.

Em nota pública, Blairo rechaçou ontem as denúncias. "Ao longo de mais de sete anos como governador de Mato Grosso jamais ordenei, incentivei ou assenti que secretários de Estado, servidores públicos, empresários ou quaisquer outras pessoas viessem a praticar atos que atentassem contra a lei, a moral e o respeito ao cidadão."

Segundo a nota, "ao tomar conhecimento de indícios de superfaturamento na operação, Blairo, então governador de Mato Grosso, imediatamente tomou todas as medidas cabíveis no campo administrativo e junto ao Poder Judiciário, posicionamento compartilhado por seu sucessor no Executivo estadual, Silval Barbosa (PMDB)".

Ele destacou "seu desejo máximo de que as investigações encabeçadas pelo Ministério Público e Delegacia Fazendária elucidem o mais rápido possível todos os detalhes do caso e que todos os eventuais responsáveis sejam punidos com o rigor que a lei e a sociedade mato-grossense exigem".

"Para mim foi uma surpresa muito grande essa denúncia", reagiu o ex-secretário Vilceu Marcheti, que foi vereador e prefeito de Primavera do Leste (MT). Ontem à tarde, ele registrou escritura pública no 6.º Tabelião de Cuiabá por meio da qual nega qualquer irregularidade. "Tenho uma história ilibada na vida pública, todas as minhas contas sempre foram aprovadas, não tenho um arranhãozinho só. Foram 7 anos no governo Blairo sem nenhuma mácula, cuidando das maiores licitações. Vou tomar providências contra esse empresário."

Briante, o acusador, também divulgou nota em que reafirma tudo o que disse aos promotores e delegados. "Minhas declarações são verídicas e eu não desminto absolutamente nenhuma delas. As declarações foram dadas com o intuito de desmontar a "fábrica de corrupção" que existia naquele órgão (Secretaria da Infraestrutura), que conduziu e realizou o processo licitatório e seu comando foi exonerado."

Briante disse que o vazamento de seu depoimento "fere a Constituição e o Código Penal". Afirmou que vai "requerer às autoridades" punição a quem divulgou seu relato.

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