Empresário seqüestrado diz que não superou trauma

Na primeira entrevista, duas semanas após ter sido libertado de um cativeiro de 120 dias, o empresário de Salto, Roberto Benito Júnior, de 34 anos, afirmou, na noite de ontem, em Sorocaba, que vive em pânico, com medo de ser seqüestrado outra vez. "O que mais quero é que não volte a acontecer, nem comigo, nem com minha família, nem com ninguém." Num desabafo, após quase cinco horas de depoimento na Delegacia Seccional de Polícia, disse que ainda não superou o trauma. "Preciso continuar lutando para esquecer." Durante o cativeiro, revelou que sonhava com a liberdade e em voltar para a família. "Sem ter noção de como e quando aquilo ia terminar, eu me apeguei à esperança." Do futuro, ele só espera trabalhar para superar o trauma e voltar à vida normal.Benito Júnior foi levado pelos seqüestradores no dia 2 de outubro e só foi libertado dia 30 de janeiro, após o pagamento do resgate de US$ 1 milhão. Durante todo o tempo, ficou em um quarto com sete metros quadrados, acorrentado pelo tornozelo direito a uma cama. O espaço máximo que tinha para se movimentar era de 1,5 metro. Benito Júnior fazia as necessidades em um balde com tampa sanitária. O local não tinha ventilação, nem iluminação natural. Ele só não perdeu totalmente a noção do tempo porque o carcereiro permitiu que ficasse com o relógio. "Era como se fosse um longo dia sem fim." Para acalmar-se, pediu para tomar comprimidos de Lexotan e foi atendido. Passaram a dar-lhe o medicamento todos os dias. Semanas depois, colocaram no quarto uma mesa e uma cadeira. Ele pediu livros e recebeu exemplares de Érico Veríssimo. Pediu também para tomar sol, mas não deixaram.O único barulho que ouvia era o som de uma rádio AM de São Paulo. O carcereiro era sempre o mesmo. Outro homem que falava com ele era o negociador do resgate. Tinha o sotaque arrastado, como do interior de São Paulo ou Minas Gerais. Benito Júnior reconheceu sua voz numa fita gravada pela polícia, num dos poucos contatos feitos pelos seqüestradores com a família. O empresário não foi ameaçado diretamente de morte, nem sofreu agressões, mas se considera vítima de um crime brutal. "É um terrorismo psicológico", definiu. Ele lamentou a falta de comunicação e de informações. "É uma forma de tortura." Encarregado da administração da rede de lojas Cem, Benito Júnior disse que sua vida mudou. "Agora, valorizo mais a convivência com a família." Ele agradeceu a solidariedade dos amigos e as correntes de orações. "Não esperava tanta solidariedade." Às famílias que têm pessoas seqüestradas, ele recomendou: "Não percam a esperança." Ele disse que acredita que esse tipo de violência um dia vai acabar. "Continuo rezando muito para isso."

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