Encontro com o ditador

Presidente é recebido por Mbasogo, que está no poder da Guiné Equatorial desde golpe em 1979

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL

MALABO

Em meio ao mormaço da floresta da Guiné Equatorial e aos temores da febre da malária, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou no começo da tarde de ontem no pequeno aeroporto da Ilha Bioko, onde o ditador Teodoro Obiang Nguema Mbasogo o aguardava com uma limusine preta, bandas de música e duas centenas de seguranças marroquinos.

No poder desde um golpe em 1979 e titular de uma conta de 600 milhões, Mbasogo costuma dizer que não acredita na segurança dos homens de seu país, uma ex-colônia francesa redescoberta há quase 15 anos por companhias de exploração de petróleo dos Estados Unidos.

Do lado de fora do aeroporto, Lula e Mbasogo foram saudados por uma claque formada por adultos e crianças que vestiam camisetas com as fotos dos dois. Músicos contratados pelo governo local tocaram canções nativas. As recepções "acaloradas" a chefes de Estado de países emergentes fazem parte de uma estratégia de Mbasogo para tirar o país do isolamento político e cultural. O ditador incluiu até mesmo o português entre as línguas oficiais para entrar na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

O diretor do Departamento de Comércio e Investimentos do Itamaraty, Norton Rapesta, disse que o Brasil tem interesse em exportar tratores, máquinas agrícolas, produtos de alumínio, bebidas e confecções para a Guiné Equatorial.

Rapesta chegou a citar a ditadura militar brasileira (1964-1985) na defesa dos negócios com a Guiné. Ele afirmou que, à época, grandes países negociavam com o Brasil. "Quando a gente tinha ditadura no Brasil, ninguém ia negociar com a gente?"

"O fato de o Brasil se aproximar (da Guiné Equatorial), trazendo o seu exemplo, pode ser uma contribuição política", disse Rapesta. "A gente tem de ser pragmático", completou.

Como no tempo das ditaduras sul-americanas, entidades internacionais de direitos humanos acusam países ricos de financiar e promover atuais regimes totalitários da África. É o caso da Guiné Equatorial.

Durante a presidência de Francisco Nguema, de 1968 a 1979, o país foi batizado de "Auschwitz da África", pelo genocídio da minoria bubi, que representa 15% da população ? os fangues são maioria. A deposição de Nguema pelo sobrinho e atual ditador, Teodoro, não trouxe liberdade de expressão e democracia para o país do Golfo da Guiné.

Exportações. Em 2009, o Brasil importou US$ 257 milhões em petróleo bruto da Guiné Equatorial. As exportações brasileiras não passaram de US$ 45 milhões, basicamente carnes congeladas.

Diante dos baixos preços dos produtos chineses, os representantes do Itamaraty tentam convencer governos e empresários dos países africanos a respeito da "durabilidade" e da "resistência" dos produtos brasileiros. A Guiné Equatorial, por exemplo, está mais interessada nos serviços de empreiteiras e engenheiros brasileiros para tocar obras financiadas pelo dinheiro do petróleo.

O governo de Mbasogo constrói uma nova capital para o país, a Nova Malabo, que ficará ao lado do centro antigo da capital e de um bolsão de miséria. Entidades internacionais estimam que 60% dos 600 mil habitantes da Guiné Equatorial vivem na pobreza.

As construtoras do Brasil enfrentam uma série de problemas logísticos e de pessoal para atender à demanda de obras na Guiné Equatorial e em outros países do continente africano. Faltam engenheiros e vias de acesso. "Um contêiner, para chegar à África do Sul, tem de passar pelos portos de Cingapura e Dubai", reconhece Rapesta.

Hoje, o presidente terá encontro reservado com o ditador Mbasogo no palácio presidencial de Malabo. Em seu 11.º giro pelo continente africano, Lula viaja à tarde para Nairóbi, no Quênia.

Ele ainda passará por Tanzânia, Zâmbia e pela África do Sul, onde, no dia 11, assiste à final da Copa do Mundo de Futebol em Johannesburgo.

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