Enfermeira depõe e diz que menina foi torturada

Médicos confirmam as marcas de espancamento

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

Uma enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Santa Cruz, onde a menina austríaca Sophie Zanger, de 4 anos, recebeu os primeiros cuidados médicos, relatou à polícia que o quadro da criança era compatível ao de quem sofria constantes agressões. A menina tinha o rosto desfigurado, trauma encefálico, fratura no pulso esquerdo e hematomas novos e antigos. O delegado Agnaldo Ribeiro da Silva deve pedir hoje a prisão preventiva da tia Geovana dos Santos, de 42 anos, que tinha a guarda provisória da criança, e da filha dela, Lílian dos Santos, de 21 anos, que a levou para a UPA, após supostamente a menina levar um tombo no banho. As duas devem ser acusadas por crime de tortura. Sophie morreu no dia 19.A enfermeira Deise Bastos, de 44 anos, foi enfática em seu depoimento à polícia sobre a morte de Sophie. "Não foi fatalidade. Foi crueldade. Aquela criança foi torturada", disse. De acordo com Deise, Sophie tinha o rosto desfigurado, corte com afundamento de crânio, uma radiografia constatou fratura no pulso esquerdo, a mão direita inchada, hematomas recentes e anteriores na coxa esquerda, ombro direito e nas costas. A região glútea estava coberta com uma mancha negra por causa do sangue coagulado. A criança estava desidratada, desnutrida e chegou em coma nível 3 na escala Glasgow, que vai até 6. A vítima não tinha abertura ocular, resposta verbal ou motora. "Não acredito que um tombo provoque uma lesão com afundamento de crânio", ressaltou a enfermeira.Deise contou à polícia que Sophie chegou à UPA molhada e vestida com uma calça rosa e uma blusa, por volta das 17h30 do dia 12. "Quando notei as manchas roxas nos braços, tirei a roupa da menina e toda a equipe médica ficou chocada. Entendi que a vestiram para esconder os hematomas", disse.Ao ver o estado da menina, a médica de plantão pediu que os seguranças chamassem a polícia e o Conselho Tutelar. Nesse momento, Lílian fugiu da UPA. Sophie foi entubada e a equipe começou a preparar sua transferência. Lílian retornou à UPA com a mãe, o pai e o primo R., de 12 anos, irmão de Sophie."Os adultos aparentavam indiferença, mesmo após ver o corpo", disse Deise. Ela afirmou que o irmão de Sophie também apresentava hematomas nos braços. Ontem, os dois PMs que atenderam a ocorrência confirmaram a versão de Deise. Os médicos que atenderam a menina confirmaram as marcas de espancamento e as condições precárias da criança.O titular da 36ª Delegacia de Duque de Caxias, Agnaldo Ribeiro da Silva, ouviu vizinhos e confirmou que as ameaças às crianças eram constantes. O laudo do Instituto Médico-Legal deve ser entregue amanhã. A Secretaria Nacional de Justiça formou uma comissão para acompanhar o caso. Ontem, chegaram ao Rio três representantes para acelerar os procedimentos burocráticos para a liberação do corpo de Sophie e a passagem da guarda de R. para o pai, Sasha Zanger.

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