Enfermeiro traficava drogas dentro da Santa Casa

Um homem vende drogas na noite desexta-feira. Acaba preso em flagrante. Seria mais uma históriacomo tantas outras na capital paulista se o crime não estivessesendo praticado dentro da Santa Casa de Misericórdia de SãoPaulo, pelo enfermeiro-chefe do pronto-socorro, Romero dosSantos, de 34 anos, que trabalhava há dez anos no local.Romero foi preso às 21h30 por agentes do Grupo deAtuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), empleno pronto-socorro, após entregar duas porções de cocaína ecomprimidos do calmante Diazepan - medicamento controlado porcausar dependência - desviado da Santa Casa.A denúncia de que um enfermeiro traficava drogas dentroda Santa Casa foi levada ao Ministério Público Estadual (MPE)pelo jornal O Estado de S. Paulo. Uma pessoa que não quis seidentificar relatou à reportagem que um enfermeiro (que chefiavaos plantões nas noites dos dias pares) vendia cocaína,comprimidos do sonífero Dormonid - de uso controlado -, morfinae uma nova droga chamada "special key". Feita a base de compostosquímicos, o key, como é chamado, tem de ser preparado no fornode microondas para o consumo.A equipe do promotor José Carlos Blat, do Gaeco, iniciouuma investigação que chegou ao suspeito na noite de sexta-feira.Às 20h40, três agentes entraram na Santa Casa sob a coordenaçãodo promotor. Um deles acabou utilizando uma pessoa identificadaapenas como Marcelo para se aproximar do enfermeiro.A negociação para a compra da droga começou às 20h55. Oagente pediu cocaína, Dormonid e special key. O jornal assistiude perto à compra da droga. "Tem não", respondeu Romero,referindo-se ao key. Sobre o Dormonid, o enfermeiro disse queconseguiria uma receita, assim o medicamento de uso controladopoderia ser comprado em qualquer farmácia."A receita vou ter de pagar R$ 30 pro médico",afirmou. A negociação foi gravada pelo agente do Gaeco. Areceita do médico e a cocaína foram acertadas por R$ 170. Romerorecebeu adiantado R$ 200, em duas notas de R$ 100.Resgate - Como se o tráfico de drogas fizesse parte doserviço, às 21h05, logo após ter recebido o dinheiro, Romero foiauxiliar o atendimento de um paciente que chegou à Santa Casatrazido pelos bombeiros do Resgate. Às 21h15, ele retornou aopronto-socorro.Pouco antes da entrega da droga, o enfermeiro avisou quea receita só seria entregue mais tarde. Passou a cocaína e, paracompensar a falta da receita para compra do Dormonid, entregoucomprimidos de Diazepan. Foi quando recebeu voz de prisão. "Tápreso, tá preso", gritou outro agente do Gaeco.Romero saiu correndo. Quando foi pego, precisou serjogado no chão e algemado, sob o olhar assustado de dezenas depessoas que aguardavam atendimento médico. Marcelo, que foiusado pelo Gaeco para chegar ao enfermeiro, sumiu no meio daconfusão. Mas o objetivo, que era o flagrante da venda de drogas, estava cumprido.Romero foi levado para a sala de enfermagem. Em suabolsa, o promotor encontrou um pequeno tubo com 40 comprimidosde Dienpax. Tubos idênticos foram localizados na gaveta onde sãoguardados os medicamentos do pronto-socorro. A suspeita é que oenfermeiro acabara de pegar os comprimidos do hospital paravender. Laudo do Instituto Médico-Legal (IML) calculou em 9,9gramas a cocaína vendida."Rapaz alegre" - O clima de constrangimento entre osfuncionários era evidente. Romero foi definido por médicos ecolegas como um "rapaz alegre" e "um enfermeiro muitocompetente". Algemado, ele não escondia a vergonha de ter sidopreso ali.O enfermeiro foi levado para o 77.º Distrito Policial,em Santa Cecília, onde foi autuado em flagrante por tráfico dedrogas pelo delegado Osmar Rebello Filho. Para a Justiça, avenda da droga para um agente público não pode ser usada comoprova, pois o flagrante foi preparado. Mas Romero portava drogapara traficar, o que o enquadra no artigo 12 da Lei 6.368/76.

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