Entorno alagado da Lagoa expõe fragilidade da zona nobre do Rio a temporais

Para autoridades, chuva atípica e maré alta causaram alagamento; especialistas afirmam que sistema de escoamento na região é precário

07 de abril de 2010 | 21h37

Homem caminha em meio a alagamento em torno da lagoa Rodrigo de Freitas. Tasso Marcelo/AE

 

Bruno Boghossian, da Sucursal Rio

 

RIO- O mega-alagamento que deixou debaixo d’água o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e parte do bairro do Jardim Botânico, na zona sul do Rio, expôs, mais uma vez, a fragilidade da região nobre da cidade aos fortes temporais.

 

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Para governo e prefeitura, a chuva atípica e a maré alta foram as responsáveis pelas inundações, mas o engenheiro Paulo Cesar Rosman alerta para a precariedade dos sistemas de escoamento da água para o mar.

 

"É como tentar esvaziar a banheira de casa com um canudinho", comparou o professor da área de engenharia costeira do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). "Os canais que fazem o escoamento foram projetados na década de 1920, com os conhecimentos que se tinha naquela época", avaliou.

 

Para evitar transbordamentos nas avenidas da orla e no restante da região, dois canais fazem o escoamento da água dos rios afluentes e da própria Lagoa: o canal do Jardim de Allah, que deságua entre as praias de Ipanema e do Leblon, e o canal da Avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon.

 

Confinada entre um conjunto de morros e o litoral, em área intensamente urbanizada, a região tende a acumular água, tendo como o mar o principal destino do escoamento. Depois do temporal, o nível da lagoa subiu 0,9 metro.

 

As pistas da Avenida Borges de Medeiros, na orla da lagoa, começaram a desaparecer sob a água da chuva na noite de segunda-feira e só foram parcialmente liberadas ao trânsito no fim da tarde desta quarta-feira, 7.

 

Segundo a gerente do Inea, Fátima Guerra, o temporal provocou um acúmulo anormal de água na região da Lagoa, e a maré alta na praia impediu o fluxo do volume excedente pelo Jardim de Allah.

 

"Com esse sistema, mantendo as comportas abertas, é possível escoar a água da Lagoa para o mar, mas você teve chuvas intensas, absurdas, e uma situação de maré muito alta", justificou.

 

"Trata-se de uma grande área impermeável, o que faz com que toda a água corra para a lagoa. Com o mar alto, a situação é ainda pior, porque as águas ficam represadas e o sistema de drenagem fica todo afogado", explicou o gerente de recursos hídricos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Luiz Salles.

 

O professor Paulo César Rosman reconheceu as dificuldades, mas acredita que a maré não pode ser considerada única responsável pelo alagamento. "Isso é uma coisa absolutamente maluca! As ressacas na praia entopem a boca do canal e deixam ainda mais restrita a área para a passagem da água. A maré mais alta se torna um problema porque o canal não tem competência hidráulica", afirmou.

 

Projetos para reformar o canal do Jardim de Allah estão sendo estudados pelo governo e pela prefeitura, em parceria com a empresa EBX, que desenvolve um plano de revitalização ambiental no local. Para Rosman, o aprofundamento e alargamento de alguns pontos do canal, além de seu prolongamento por 200 metros além da linha do mar, poderiam quadruplicar a vazão de água - de 5 m³/s para 20 m³/s. "De acordo com simulações que fiz, essas medidas seriam suficientes para aguentar grandes chuvas e até a elevação do nível do mar."

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