Entre 12 milhões de toneladas de alimento por mês

Do administrador de apenas 18 anos ao herdeiro do sanduíche de mortadela, histórias dos mercadões paulistanos

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Em busca de variedade de produtos e, muitas vezes, de atendimento personalizado, todos os meses cerca de 1,4 milhão de pessoas circulam pelos 15 mercados municipais paulistanos. Elas têm à disposição um total de 681 boxes com quase tudo o que se pode imaginar: de frutas exóticas como pitaia, abiu, magostiam e rambutã a queijos de todos os tipos; de lanches caprichados a carnes variadas; de sementes de alecrim a peixes frescos. Tamanha oferta tem procura, como prova o balanço mensal dos mercados. Somados, eles vendem 12 milhões de toneladas de alimentos por mês. Confira os endereços e horários de funcionamento dos mercados de SPA fatia mais opulenta dessa numeralha fica com o Mercado Paulistano, o famoso e tradicional Mercadão, da Rua da Cantareira - cujos dados, aliás, são registrados juntamente com o vizinho, o Mercado Kinjo Yamato, construído para ser um entreposto de verduras complementar ao Mercadão. Mais antigo em funcionamento na cidade, foi projetado por Ramos de Azevedo em 1926 e erguido sete anos depois. Por seus 12,6 mil m² circulam, mensalmente, 600 mil clientes, atendidos pelos 1,6 mil funcionários que trabalham ali e comercializam, juntos, 10,5 milhões de toneladas de alimento por mês. Presente no Mercadão desde a inauguração, o boxe Queijos Roni é quase um patrimônio histórico. A tradição da família no ramo vem de longe. "Começou com meu bisavô em 1889, quando ele deixou a Calábria, na Itália, para se fixar no Brasil, onde passou a fabricar queijos", relata Roque Tadeu Peta, o Roni, de 54 anos, engenheiro civil de formação que há 22 anos decidiu largar diploma e carreira para tocar o empreendimento da família. "Quando meus avós começaram a trabalhar aqui no mercado, a ricota era embalada em folha de bananeira e a manteiga ficava em tambor, vendida a granel."A poucos metros de seu boxe fica outro pioneiro: o Bar do Mané, hoje administrado por Marco Antonio Loureiro, de 52 anos, neto do fundador. Ali nasceu o famoso lanche de mortadela, reproduzido por diversos outros boxes deste e de outros mercados da capital. "O bar servia para atender os atacadistas que vinham comprar alimentos no mercado", afirma. "Era uma coisa simples e rápida." Os lanches de mortadela começaram a ficar conhecidos nos anos 60. Marco conta que, atualmente, são vendidas ali cerca de 600 unidades por dia (R$ 9 cada, com aproximadamente 300 gramas de mortadela). Recentemente, ele fez uma reforma em seu boxe, ampliando o espaço. "Agora pretendo dobrar a venda."O segundo mercado mais movimentado da cidade é o da Lapa, que recebe nos 95 boxes 200 mil clientes por mês. Ali são comercializadas, mensalmente, 380 mil toneladas de alimento. Mesmo em meio a tamanho corre-corre, Silvio Yoiti Katsuragi, o dono da Peixaria São José da Lapa, encontra tempo para um hobby: os peixes (vivos!). Ele cuida de dois aquários - de 800 litros cada, um com 4 pacus e outro com 30 kinguios - que decoram um dos corredores do mercado. "Foi uma tentativa, há mais de dez anos, de vender peixes vivos, para quem quisesse assim", revela. "Mas a vigilância sanitária não permitiu. Então decidi dar às crianças a oportunidade de apreciarem um aquário." Aquarismo, aliás, é uma paixão do empresário, formado em Administração e Direito. Ele também mantém um aquário de mil litros, com carpas, no escritório, e outro, de 90 litros, com kinguios, em casa. Não muito longe está a memória viva do Mercado da Lapa: Salvador Falabella, de 80 anos, que trabalha ali, no mesmo local, há 45. Ele é o dono da Tabacaria Falabella, loja de fumos fundada pelo pai, Pedro - e que hoje é dividida com o filho, Fabio, de 35 anos. "Olha, eu vi isso aqui mudar muito. Acredito que hoje o público é menor, pois o mercado sofre a concorrência dos supermercados, que existem em todos os lugares", comenta. "Mas o cliente que vem aqui é diferente: gosta de conversar, perguntar..."Em termos de experiência, ele é exatamente o avesso do administrador Bruno Gomes Marcos, que toca o Empório Flor da Lapa há seis meses. Suas feições denunciam a pouca idade: apenas 18 anos. "Quando completei 18, minha mãe não queria mais que eu ficasse vagabundeando em casa e comecei a gerenciar o boxe, que é um negócio da minha família", diz ele, que cursa o 1º ano de Administração na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e, como bom descendente de lusitanos, torce para a Portuguesa. "Mas também para o Palmeiras", divide-se. LIVROS USADOS E QUADROSOs mercados da periferia são bastante semelhantes, tanto pela diversidade como pelos personagens. Além de alimentos, no de Guaianases, aberto em 1989, é possível encontrar livros usados e uma espécie de ateliê de arte. Uma das 36 lojas dali é a Book Box, um sebo de livros com cerca de 6 mil volumes. "Meu pai, Juraci, trabalha com livro há 20 anos", conta Jonathan Alves Cavalcanti, de 21 anos, que toca o negócio. "Ele tinha uma banquinha perto da Estação São Miguel (em São Miguel Paulista). Então pensou em entrar no mercado de lá, em 2006." Deu certo e o sebo virou rede, com uma loja (de rua) no Itaim Paulista e, desde novembro, o boxe do Mercado de Guaianases. E, criado assim no meio dos livros, ele gosta de ler? "Sim. Leio de dois a quatro livros por mês, principalmente os de aventura", garante, citando como autores prediletos o americano Sidney Sheldon (1917- 2007) e a britânica Agatha Christie (1890-1976).Com telas que variam de R$ 18 a R$ 200 - "Às vezes a gente ?negoceia? porque precisa levar o sustento para casa", frisa -, o artista plástico Silvio da Silva Junior, de 57 anos, faz do corredor o seu estúdio. Autodidata, conta que desde criança gosta de desenhar. Há 12 anos, começou a pintar com óleo sobre tela. Já foi metalúrgico, torneiro mecânico e vendedor ambulante. "Passei a viver de quadros há três anos", lembra. "O poder aquisitivo aqui na região é baixo. Já cheguei a ficar um mês sem vender obra nenhuma." Ele prefere pintar animais, imagens sacras e paisagens, "mas faço de tudo porque trabalho com encomenda também".

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