Isabela Liparizi
Isabela Liparizi

Entre amor e ódio, horário de verão começa à meia-noite deste sábado

Tem até quem boicote medida. À meia-noite de hoje, relógio deverá ser adiantado em uma hora

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto parte do Brasil ajusta os ponteiros para o horário de verão, Edemira Colodetti, de 70 anos, nem esquenta a cabeça. É que na casa da aposentada as horas não andam para frente ou para trás só por causa de uma decisão do governo brasileiro. “O horário de verão é inventado pelo homem. Eu sigo o horário de Deus, da natureza.” 

Desde que o horário de verão passou a ser adotado anualmente, em 1985, Edemira se rebelou contra a convenção e, na casa onde mora com o marido Jandyr Bellon, de 77 anos, de janeiro a janeiro os relógios seguem o tique-taque normal. Assim, viverão, a partir da meia-noite deste sábado, 14, com fuso de uma hora em relação a metade do Brasil, incluindo os vizinhos da pequena localidade de Aracê, de pouco mais de 7 mil habitantes, que pertence ao município de Domingos Martins, no sul do Espírito Santo. 

“Nunca coloquei no horário de verão. Às vezes, as visitas vêm e falam: “peraí, mas ainda é esse horário? Aí eu já oriento que meu relógio está uma hora atrasado”, diz ela. “E eles almoçam no horário da gente”, conta Edemira, que ainda prepara a comida – os vegetais que ela mesma colhe no quintal – no antigo fogão à lenha. 

A verdade é que, mesmo se ajustassem os ponteiros, Edemira e Jandyr ainda assim viveriam em outro tempo, que, de tão raro, os moradores das capitais têm até dificuldade de imaginar. Aposentado, Jandyr acorda às 3 e meia e até as 10 horas já está almoçando. Janta às 4 e meia da tarde e dorme com as galinhas. “Se meu marido já janta cedo, no horário de verão ele vai jantar às 15 horas? Aí é muito.” 

Para Edemira, até os animais ficam confusos com as modernidades. “Antes, o galo só cantava às 2 horas da manhã. Agora, canta a qualquer hora, porque é tanta lâmpada acesa”, reclama ela, que, apesar de gostar da vida simples na roça, já se rendeu ao WhatsApp e estica o dia para dormir só depois das 9 da noite.

Embora não mexa nos relógios da casa, o casal faz, de vez em quando, algumas conversões para não perder compromissos importantes. Como quando querem assistir a uma programação na TV ou se têm consulta médica e viagem planejada com os filhos. “A gente sabe que a missa vai ser uma hora mais cedo. Não somos bobos, não”, avisa ela, que não se diz contra nem a favor da mudança. “Se é para fazer economia, tudo bem. Só não sigo”, diz, em meio a risadas. 

Ajuste. Quem também tenta driblar o horário de verão é a professora Rebeca Amaral, de 35 anos. Para ela, a mudança é injusta para quem já organizou a rotina ao longo do ano. Por isso, Rebeca poupa os filhos Davi, de 5 anos, e Luísa, de apenas 1, do relógio adiantado. “Se para mim já é difícil, imagina para as crianças?”, questiona ela, que mora em Brasília. 

Para não mexer na organização dos pequenos, Rebeca vai deixar, a partir deste sábado, que eles sigam os mesmos horários a que se habituaram ao longo do ano até, aos poucos, acabarem se ajustando à nova convenção. “Se ele (Davi) dormia às 10, agora vai dormir às 11”, diz. “Não vamos forçar. Não acho justo mudar o relógio biológico da criança.”

Quem também se sente um peixe fora d'água com o novo horário é o funcionário público Anderson Gonçalves, de 40 anos, que acorda todos os dias por volta de 4 horas da manhã para se deslocar da zona leste de São Paulo à zona oeste para trabalhar. “Nunca me acostumo. Meu relógio biológico estava cronometradinho”, diz ele que faz até festa nas redes sociais quando a mudança chega ao fim, em fevereiro. 

De opinião oposta, a administradora Carla Fazanelli é do time dos adoradores do horário de verão. “Gosto porque anoitece mais tarde, dá a impressão de que o dia está mais comprido”, diz ela que criou uma página no Facebook sobre o assunto para dividir o amor que sente pela mudança anual. “Fiquei sabendo que o governo queria acabar com o horário de verão, mas eu tinha certeza de que essa ideia não vingaria. Nem me abalei. A grande maioria gosta.”

Para todos, o horário de verão começa à meia-noite deste sábado, 14. A população dos Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste deverá adiantar os relógios em uma hora. Já os Estados das regiões Norte e Nordeste não participam do horário de verão, que terminará no dia 15 de fevereiro de 2018. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.