Entre as vítimas, ex-menino de rua

Adotado aos 2 anos por italianos, baiano voltava da 1.ª visita ao País

Mariana Faraco, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Quando embarcou de volta para a Europa no voo 447 da Air France, Georg Martiner, 25 anos recém-completados, acabava de fechar um ciclo de sua história. Abandonado ainda bebê nas ruas de Salvador e adotado aos 2 anos por um casal italiano, ele havia passado as duas últimas semanas viajando pelo Brasil. "Era o sonho dele conhecer o lugar onde nasceu. Demos a viagem de aniversário", conta a mãe italiana, a professora Alberta Kostner, de 52. "Mas ele não via a hora de voltar."Ao se lembrar das últimas conversas com o filho, por telefone, Alberta é capaz de remontar as impressões de Georg sobre o Brasil. "Ele gostou muito do Rio, disse que parecia mais com a Europa. Foi a Fortaleza, onde comemorou o aniversário com amigos de Viena. Gostou menos de Salvador, a terra natal. Não me disse o porquê." Na Bahia, Georg não tinha esperança de encontrar qualquer vestígio dos pais biológicos. Fora abandonado em 1984, "em meio ao lixo", segundo Alberta. Foram dois anos de burocracia e um período de convivência de dois meses em Salvador até que Alberta e o marido, Leo, pudessem levá-lo para viver com eles no norte da Itália, na pequena Ortisei. Adotaram também Markus, da mesma idade, que vivia igualmente abandonado em Salvador. Cinco anos depois, a família ganharia mais um integrante baiano, Thomas.Dos três irmãos, Georg talvez fosse o mais livre. Com a partilha dos bens da família, desde os 18 anos vivia com independência, sem precisar trabalhar, fazendo cursos de todos os tipos, de moda a produção de cinema, saindo para dançar todas as noites, praticando snowboard no inverno e correndo para as praias no calor - adorava o mar. "Ele estava morando em Viena. Tinha namorada, muitos amigos." Seu único problema, diz a mãe, era não ter terminado os estudos. "Ele foi à escola até os 14 anos. Foi quando o pai morreu de leucemia. Daí em diante as coisas ficaram complicadas. Começava bem os cursos, depois largava." Essa dificuldade, porém, estava para ser transposta. Georg tinha planos para quando voltasse do Brasil. "Ele queria terminar os estudos aqui. Tinha o sonho de se tornar um embaixador."

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