Entre as vítimas, mãe e bebê de colo

A família tinha ido passear em Porto Alegre e estava voltando para Manaus, onde morava. Quando soube que teria de ficar sozinha com o filho em São Paulo, Jamile manifestou apreensão. Não conhecia a cidade e tinha medo. Isso fez com que o marido saísse em busca de lugar em outro vôo. E teve sorte: conseguiu embarcar uma hora antes, pela Gol. Mais tarde, às 18h50, ele já estava na área de desembarque do Aeroporto de Congonhas, esperando mulher e filho, quando ouviu a explosão. Ao saber que se tratava de um aeronave da TAM, saiu correndo. "Correu para a avenida e entrou em desespero vendo as labaredas comendo o avião", contou o irmão, Ildebrando, que foi ontem de Manaus para São Paulo, para colaborar na difícil tarefa de reconhecer os corpos da cunhada e do sobrinho. "Meu irmão agora está internado em um hospital. Fica se culpando, mas não é certo: ele só queria protegê-los, chegando antes ao aeroporto." Ilderley e Jamile se conheceram há três anos, quando ele passava férias no Ceará. "Minha cunhada é de lá. Os dois se apaixonaram, casaram e moravam juntos em Manaus há dois anos. O filho é a grande alegria na vida deles", disse Ildebrando, sempre usando o verbo no presente, como se toda a família ainda estivesse viva. Enquanto falava, mostrou uma foto de Jamile, no aniversário de um ano de Levi, em novembro. A mãe e o filho de colo não foram os as únicas pessoas de Manaus que morreram no acidente aéreo. Segundo a TAM, também estava no vôo 3054 o empresário amazonense Gabriel Correia Pedrosa Júnior, de 26 anos. Formado em administração de empresas, ele trabalhava com o pai numa empresa de transportes aéreos para a Bacia Amazônica. Há um ano tinha aberto seu próprio negócio - uma franquia de uma rede de comida área. Segundo um amigo da família, era um rapaz alegre e talentoso nos negócios. Ele tinha ido a Porto Alegre fazer um curso e estava voltando para casa. DESESPERO O barulho da explosão no salão de desembarque do aeroporto teve um efeito devastador. Boa parte das pessoas que estava por lá aguardava a chegada de parentes que vinham de Porto Alegre. Uma delas era o empresário José Carlos Dornelles. Na terça-feira à tarde o telefone tinha tocado. Era sua filha, Eliana Smith Bernardes, de 38 anos, também empresária. Ela já estava acomodada no avião da TAM, o Airbus A320, que logo levantaria vôo em direção a São Paulo - e ligava para pedir ao pai a esperasse no Aeroporto de Congonhas. Os dois tocavam uma empresa de transporte aéreo de carga e semanalmente viajavam para São Paulo. Na terça, José Carlos veio na frente e, após o telefonema da filha, ficou na área de desembarque. Faltavam alguns minutos para as sete horas, quando ouviu a explosão. Levantou-se, assustado, e saiu em busca de informações. "Quando falaram que o avião era da TAM, soube que minha filha estava lá", contou ontem, desolado, e ainda sem saber o que iria dizer aos dois netos, filhos de Eliana - um de 5 anos e outro de 7. "Ainda não sei como explicar." Também estava no aeroporto o pai de Claudemir Arriero, químico, de 41 anos, funcionário de uma empresa multinacional, que dividia seu tempo entre São Paulo e a capital gaúcha. Ele voltou para casa sozinho e também com a difícil tarefa de dar a notícia para os dois filhos de Claudemir, um rapaz de 20 anos e uma garota de 13. Para outros familiares, a notícia veio pela televisão. Foi o caso da família de Cássio Vieira Sérvulo da Cunha, de 37 anos. Advogado, chefe do serviço jurídico de um banco, ele tinha ido a Porto Alegre a trabalho e voltava para casa, onde o aguardavam a mulher e dois filhos pequenos. Eles souberam da morte do pai pela TV.

O Estado de S.Paulo

19 Julho 2007 | 05h16

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