Entrevista: 'A polícia está extremamente envolvida no crime organizado'

Sociólogo que elaborou tese sobre a violência na região fala sobre grupos de extermínio e risco de disseminação do caos

Entrevista com

Marco Aurélio Borges

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 03h00

Vítimas que choram é o nome do livro lançado no ano passado pelo professor Marco Aurélio Borges, com base na pesquisa feita para sua tese de doutorado. O estudo, que tem o subtítulo de “acumulação social e empreendedorismo violento no Espírito Santo”, resgata o passado de violência do Estado e aborda as peculiaridades capixabas. Ao Estado, ele falou sobre a realidade de insegurança atual na região e o risco de o movimento grevistas dos policiais se espalhar.

Como a população sentia a eficiência do aparato de segurança capixaba antes da paralisação?

O histórico do Espírito Santo não é o de um Estado que de repente se torna violento. É um Estado que sempre foi violento. Nos anos 1980, houve um aumento vertiginoso dos homicídios e, no fim dos anos 1990, nos aproximamos de uma intervenção federal por causa do envolvimento de atores institucionais extremamente importantes no crime organizado. A famigerada Scuderie Le Cocq, que nasceu no Rio, tinha fortes ramificações aqui. Já desde os anos 1960 e 1970, se tem no Espírito Santo, nos modelos do Rio, grupos de extermínio atuando. Assim, a polícia está extremamente envolvida no crime organizado, não a polícia como instituição, mas muito atores extremamente relevantes da corporação eram envolvidos com grupos de extermínio e com atos criminosos.

Há uma queda de homicídios recente, porém...

É fato que nos últimos anos tem havido uma queda nos homicídios ainda que não entendamos muito bem porque eles estão caindo. Existem muitas variáveis que podem ser desde uma mudança de faixa etária até também a eficácia da melhoria do serviço de segurança. É um dilema parecido com São Paulo nesse aspecto. Mas essa queda ocorreu em paralelo a um sucateamento da estrutura de segurança, o que reforça o paradoxo.

Assim, havia motivos para protesto dos policiais?

É complicado um servidor estadual, como o policial militar, não poder fazer greve porque está submetido a um regimento militar, enquanto médico pode fazer greve, desde que respeite as leis relativas a essa questão. E isso vai produzindo no servidor público policial uma angústia muito grande. Ele vê os salários se defasando, vê suas condições de trabalho se precarizando, as estruturas se deteriorando, mas ele não tem um instrumento legal, que seria a greve, para fazer a pressão. Envolveram, então, os familiares e amigos aqui no que foi uma opção mal sucedida porque ficou claro que era uma estratégia para driblar a ilegalidade. As reações a nível federal estão sendo muito duras pelo risco de esse modelo de manifestação se espalhar.

Que fator explica o cenário? 

O fator nacional é que vivemos uma crise institucionalizada no País. Há poucos dias, as tropas federais estavam no Rio Grande do Norte e em outros Estados controlando presídios. No caso específico, há a grande preocupação em manter o equilíbrio fiscal. Por outro lado, manter os pagamentos em dia tem seu custo, que é não dar aumento, cortar nos servidores. São muitos ingredientes nessa receita, que acabou se mostrando bombástica

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