Entrevista é ritual de saída

A entrevista do ministro Antonio Palocci ao Jornal Nacional produziu um consenso nos meios políticos: tratou-se de um ritual de saída a autorizar a versão de que o governo já procura um substituto para a Casa Civil. A forma e o conteúdo da entrevista cumpriram o objetivo de dissociar os negócios do ministro do governo e do PT.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2011 | 00h00

Palocci admitiu não ter contado à presidente Dilma Rousseff tudo sobre a sua próspera consultoria, limitando-se a informar que cessara as atividades da empresa antes da posse para evitar conflito de interesses. Assumiu como decisão pessoal não revelar sequer sua carteira de clientes incluindo fraudulentamente essa informação no rol daquelas protegidas pela cláusula de confidencialidade comercial.

Verdade ou não, ao dizer singelamente que "não quis aborrecer a presidente com esse tipo de detalhe", como mencionou à Folha de S.Paulo, livrou Dilma do peso de explicar porque admitiu sua posse se estava informada de seus negócios - um obstáculo concreto à sua demissão.

Isolada dessa razão estratégica, a entrevista não faria qualquer sentido por não esclarecer simplesmente nada que possa afastar a suspeita de tráfico de influência por parte de uma eminência parda de um governo de continuidade.

Depois da entrevista, o diamante de R$ 20 milhões da metáfora cínica do ex-governador do Rio de Janeiro, deputado Anthony Garotinho (PR-RJ), continua em exposição, mas a presidente Dilma já está liberada para retirá-lo da vitrine.

E recompor a articulação política de seu governo prematuramente abalado.

Redução de danos

A escolha da TV Globo para a entrevista obedeceu à conveniência do governo de ampliar a fala de Palocci para um universo de 70 milhões de espectadores e de reduzir o espaço para réplicas por parte dos entrevistadores, beneficiando-se do limite de tempo a que as emissoras estão submetidas. Uma estratégia comumente adotada pelos que precisam evitar exposição muito longa ao contraditório limitando ao mínimo os danos inevitáveis em escândalos do gênero. Quando o propósito é, de fato, prestar esclarecimentos, o formato é a entrevista coletiva.

Novo desenho

As especulações sobre a sucessão de Palocci, por ora, indicam que a Casa Civil poderá continuar com o PT, mas voltada à gestão interna, o que imporia a substituição do ministro das Relações Institucionais, Luís Sérgio, cujo desempenho ficou muito aquém do esperado. No seu lugar entraria um novo articulador político que, pela bolsa de apostas já aberta em Brasília, pode vir a ser o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ex-ocupante do cargo.

Que reage à ideia.

No limite

Em jantar do PMDB no Palácio do Jaburu, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) se disse no limite com a rotina de votar medidas provisórias a toque de caixa. Ameaçou parar de lê-las, condição regimental para que tramitem.

Machismo

Alheia ao desabafo de Sarney, a senadora Marta Suplicy (PT-SP)alvo de ironias e chacotas da oposição na sessão do Senado que rejeitou duas medidas provisórias, se disse vítima de machismo. "Se fosse José Sarney dirigindo, a oposição não seria tão dura" desabafou. Nem precisaria.

Fora do ar

Após a entrevista de Palocci, os celulares dos 15 senadores do PT estavam desligados. "Sorte dele", ironizou um pemedebista, sugerindo que o silêncio evitou mais "fogo amigo".

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