ENTREVISTA-Presídios do país são incapazes de isolar Beira-Mar

Não há regime ou sistemaprisional no Brasil capaz de impedir que o megatraficanteFernandinho Beira-Mar continue mantendo contato com o mundoexterno e comandando a sua organização criminosa de dentro dacadeia. A avaliação é do próprio secretario nacional deSegurança Pública, Antonio Carlos Biscaia. "Ele montou uma organização incrível e incontrolável",afirmou Biscaia em entrevista à Reuters nesta sexta-feira.Nesta semana, a Polícia Federal prendeu 11 pessoas ligadas àquadrilha do traficante nos Estados do Rio de Janeiro, SãoPaulo, Mato Grosso do Sul e Paraná. A mulher de Beira-Mar, Jaqueline Alcântara de Morais,também foi presa na operação e, na casa dela, foram apreendidos200 mil dólares em espécie, além de jóias, documentos ecomputadores. Ela é apontada pela PF como a segunda pessoa maisimportante da quadrilha comandada por Beira-Mar dapenitenciária de segurança máxima de Campo Grande, no MatoGrosso do Sul. Segundo Biscaia, o traficante está incluído no regimedisciplinar diferenciado (RDD) que o obriga a ficar isoladodurante 20 horas ao dia e sem contato com nenhum outro preso. "Não há como impedir que ele tenha contato com familiares,amigos e advogados que atuam como pombo correio dele. Algunsestão morando na cidade dos presídios onde ele fica preso parafacilitar o contato", afirmou Biscaia. "A lei faculta a ele o direito de receber essas visitas enão temos como impedir. A Justiça não nos daria essaconcessão", acrescentou. Apesar do isolamento, Beira-Mar usa, segundo o secretário,técnicas para tentar intimidar e pressionar os agentespenitenciários que trabalham no presídio. "Outro dia um agenteme contou que o Beira-Mar virou para ele e disse: 'muito bonitaa moça loira com a qual você estava no shopping em Foz doIguaçu, no dia tal e na hora tal'. Ele joga pesado", declarou. "Outro dia no banho de sol ele ofereceu ajuda e auxílio afamília de um preso de Campo Grande. Assim ele vai construindouma rede de confiança e atuação", acrescentou o secretário. Ele descartou a possibilidade de a estratégia de Beira-Marfacilitar a comunicação do traficante com o meio externo. "Nãoacredito que isso possa ocorrer lá. São profissionais sérios,concursados e bem remunerados", destacou. Segundo ele. o salário médio de um agente penitenciáriofederal é de cerca de 4 mil reais, ao passo que osprofissionais estaduais recebem cerca de 800 reais. "Se não for em presidio federal, não tem como controlar omínimo possível. Às vezes nem e por má fé, mas o agente ficaacuado e se sente intimidado", disse. O secretário avaliou ser pouco provável que a transferênciado traficante para um outro país seja autorizada pela Justiçabrasileira. "Sempre vai ter um magistrado na defesa dos direitos dospresos", avaliou. O secretário considera Beira-Mar um traficanteirrecuperável e irresocializável. Além de defender a segregaçãodo bandido em penitenciárias de segurança máxima, o secretáriotambém se declara favorável ao fim das vítimas íntimas para otraficante. "Lá fora (no exterior) não tem isso. Quando defendo issoaqui, só faltam me matar, mas se ele é irrecuperável, por quedar vantagens? As visitas intimas estão sendo usadas tambémpara articular a organização criminosa", finalizou.

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