Episódio do dossiê é um ´monumento à insanidade´, diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou nesta sexta-feira, 22, em entrevista à rádio CBN, que mais uma vez foi traído, agora no caso da compra do dossiê da Planam contra o candidato do PSDB ao Governo de São Paulo, José Serra. Lula classificou o episódio como um "ato de insanidade". "Esse episódio, se pudéssemos transformar ele numa obra, numa construção, ao final ele poderia ser chamado de monumento à insanidade", disse o presidente, isentando-se de participação no caso. "Porque todo mundo sabe do meu currículo político, da minha participação na política. Todo mundo sabe que tem uma coisa que prezo que é a disputa limpa, o debate político, programático, de idéias", afirmou.Segundo Lula, membros da sua campanha acharam que havia na compra do dossiê uma grande oportunidade, mas não levaram em consideração sua linha de atuação. "De repente pessoas acharam que eram espertas e que podiam descobrir a ´Mina de Colombo´ sem ter em conta que a mim não interessava nada, porque eu não tenho que procurar coisas de adversários, até porque não disputo a campanha em São Paulo", disse o presidente, ao confundir as expressões "ovo de Colombo" e "mina de Salomão".Para Lula, o fato de a Polícia Federal não ter mostrado o dinheiro apreendido com o advogado Gedimar Passos e com o membro do PT Valdebran Carlos Padilha não constitui um problema. "Eu não me meto e não tenho hábito de dar palpite no comportamento da Polícia Federal. A Polícia Federal tem autonomia e inteligência suficiente para fazer o que ela entende que deva ser feito. O que importa para mim é que tudo seja esclarecido", disse.InteligênciaOs ex-membros do setor de inteligência da campanha do PT receberam hoje duras críticas do presidente.Lula colocou em dúvida a honestidade dos membros do setor de inteligência do PT envolvidos no caso da compra do dossiê da Planam e disse crer que ao negociarem o documento com o empresário Luiz Antonio Vendoim "as pessoas estavam imbuídas de um momento de loucura"."Acho que essas pessoas se acharam no direito de achar que podiam fazer bem a alguém colocando na sua vida pessoal uma prática política condenável, porque não é possível que uma pessoa honesta faça negócio com bandido", disse.Lula disse não entender como os membros da sua campanha concluíram que a compra do dossiê conta o tucano José Serra poderia beneficiar a candidatura petista. "Essa história do Vedoin está rolando há meses na imprensa brasileira e eu não sei como alguém se dispõe a acreditar que o Vedoin ia fazer alguma coisa que pudesse beneficiar a candidatura do PT."Lula ainda tentou afastar qualquer ligação mais próxima com o ex-secretário do Ministério do Trabalho Oswaldo Bargas e com o ex-chefe do núcleo de mídia e risco da campanha da reeleição, Jorge Lorenzetti. "O Oswaldo Bargas trabalhava no Ministério do Trabalho e o Jorge Lorenzetti não tinha nenhuma participação no governo. Eles foram contratados pelo partido para fazer o serviço de inteligência e provou-se que o serviço não era tão inteligente quanto se pensou que era", afirmou.Quanto ao ex-diretor de gestão de Riscos do Banco do Brasil (BB), Expedito Afonso Veloso, Lula disse que ele é funcionário de carreira do banco e que sua saída foi decidida pela direção da instituição. "É inexplicável que um homem que tem vinte poucos anos de carreira no BB tenha jogado isso fora num movimento de rara, eu diria até, imbecilidade", concluiu.Mercado financeiroO candidato à reeleição afirmou que a mais recente crise envolvendo o seu governo não foi o motivo da tensão provocada nesta quinta, 21, no mercado financeiro. Lula disse que fatores internacionais, como a crise política na Hungria, as dúvidas sobre o comportamento futuro da economia norte-americana e a taxa de juros daquele país tiveram participação no comportamento do mercado.Segundo Lula, a alta do dólar, que subiu 1,47% para R$ 2,209 e atingiu o maior nível nesta quinta desde 14 de julho, é algo normal em um mercado de câmbio flutuante e até é motivo de satisfação para setores da economia que reclamavam da desvalorização da moeda frente ao real."Nós temos um dólar que é flutuante. Em outras vezes que o governo americano começou a aumentar um pouquinho a taxa de juros, o nosso dólar subiu. Agora, nós temos uma crise na Hungria; nós temos uma declaração do presidente do Equador de que irá renegociar a questão da dívida; e nós temos uma crise nos Estados Unidos", listou Lula. "Isso pode ter tido uma interferência na economia brasileira, mas eu posso dizer que a economia brasileira nunca esteve tão sólida nestes últimos 30 anos como ela está agora. Ou seja, essas crises eventuais não nos preocupa", opinou o presidente.Crescimento sólidoO presidente disse que nenhuma economia está crescendo com a solidez da brasileira. Ele reconheceu que o Brasil está apresentando níveis de crescimento que ainda não são satisfatórios, inclusive abaixo da média da América Latina, mas ressaltou que, no início do seu governo, precisou, diante de um cenário desfavorável, "refazer a casa" e dar condições para a recuperação econômica."Nós precisamos refazer a casa. Tivemos que desmanchar a casa, fazer uma alicerce novo, muito sólido e levantar uma parede. E, agora, eu posso dizer: nós vamos madeirar essa casa e cobrir e vai ser uma casa sólida", comentou o presidente da República, destacando que, antes do seu governo, o superávit comercial brasileiro era "medíocre" e que o Brasil importava pouco. "Nenhuma economia está crescendo com a solidez da do Brasil, porque nós fizemos uma combinação que poucos países fizeram, de crescimento econômico com uma forte política social", disse, citando, como exemplo, as políticas de crédito e o programa Bolsa Família, bandeiras de sua gestão, que, segundo ele, propiciaram uma grande quantidade de dinheiro circulando no País.Lula destacou que o estado tem "pouca capacidade de investimento" para incrementar o crescimento e que, por isso, foi criada a Parceria Público-Privada (PPP). "Agora, está pronto o Fundo Garantidor, agora está pronto o projeto de PPP e nós estamos chamando os empresários para discutir quais são os projetos", afirmou."Eu tive que tirar um doente da UTI e, hoje, ele está fora do hospital. O Brasil hoje está totalmente curado, pode crescer e vai crescer", insistiu, acrescentando que faz parte de um grupo de pessoas que torce para um crescimento econômico da ordem de 6% a 7% ao ano e que trabalhará para que isso aconteça.Jogo democráticoO comportamento da oposição foi atacado pelo presidente. Lula sugeriu que os oposicionistas têm sido irresponsáveis ao não votarem matérias que ele considera importantes para o País. "A única coisa que a oposição não pode confundir é a briga ideológica que queiram ter comigo, a briga partidária que queriam ter comigo, com a responsabilidade de governar esse País. Por conta do comportamento da oposição estamos com o Fundeb há mais de um ano e meio (sem aprovação), que é um fundo nacional de educação que poderia colocar mais R$ 4,5 bilhões na educação brasileira", disse.Na opinião do presidente, há membros da oposição que também não têm tido um comportamento democrático em relação ao debate político do País. "Me parece que algumas pessoas da oposição não gostam de fazer o jogo democrático, ou seja, tudo pode acontecer desde que eles estejam no poder. Essas pessoas precisam aprender que a democracia é o respeito à vontade da maioria, e o povo brasileiro vai se manifestar no dia 1º de outubro", disparou.Lula, entretanto, admitiu que os ataques que tem sofrido também fazem parte da dinâmica da política e são inerentes ao papel desempenhado pela oposição. "Não me importo que a oposição fale o que quiser de mim, faz parte do jogo político no mundo inteiro. O que eu quero é que ela seja responsável e vote as coisas que precisam ser votadas", afirmou.ImpeachmentQuanto à notícia de que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) poderá estudar um pedido de impeachment, mesmo após a eleição, o presidente destacou que no Brasil "as pessoas são livres para falarem o que quiserem", mas advertiu: "As pessoas para falarem em impeachment precisam ter base jurídica e sobretudo ter base política."Para o presidente da República, os que discutem um impeachment "podem continuar falando porque quem vai julgar as pessoas pelo bem e pelo mal é o próprio povo brasileiro."WatergateLula repeliu a comparação entre o caso da compra do dossiê da Planam com o caso Watergate feita pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello.Segundo Lula, o ministro do TSE errou ao fazer a declaração. "Não tem nada a ver com Watergate. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral falou isso num momento indevido e fez uma comparação que não tem absolutamente nada (a ver)", disse.Para o presidente, ambos os casos são condenáveis, mas é preciso estabelecer diferenças. "(Em Watergate) você tinha um governo que mandou espionar a sede de um partido político para saber o que o partido pensava. O nosso (caso) é um grupo de pessoas que não fazem parte da direção do partido, que estavam trabalhando temporariamente no departamento da campanha e resolveram comprar um dossiê", afirmou, ressaltando que "são duas coisas distintas, as duas obviamente condenáveis."

Agencia Estado,

22 de setembro de 2006 | 09h14

Tudo o que sabemos sobre:
eleiçõeseleições 2006

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.