Equipes exaustas na procura por mortos

Agora o trabalho é de revirar a lama na busca por cadáveres

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2008 | 00h00

"Não me entenda mal, por favor, mas eu darei graças a Deus se apenas quatro ou cinco pessoas estiverem soterradas por aqui." Com essas 22 palavras e suas olheiras profundas de dias sem dormir direito, o policial civil Cristiano Laviando resume da maneira mais clara e honesta possível o sentimento dos moradores da região do Morro do Baú, entre Blumenau e Ilhota. Somente ontem de madrugada, cinco dias após o início dos deslizamentos no Estado, bombeiros, militares, voluntários e policiais como Cristiano conseguiram pisar na região e começar os trabalhos para resgatar as vítimas da tragédia."Os helicópteros já retiraram os vivos. Agora, temos que encontrar os mortos", diz o subtenente José Eduardo Fabres de Jesus, de 40. "Nunca vi uma tragédia dessas. Aqui podem ter dezenas de pessoas mortas, sem falar o risco de doenças que existe a partir de agora e a possibilidade de novos deslizamentos. Sabemos que há três pessoas mortas soterradas em um morro aqui perto, mas não conseguimos chegar ainda porque nós podemos virar vítimas também."A região tem cerca de 100 quilômetros quadrados e está encravada no meio de dois vales, o que e potencializou a catástrofe e dificultou o acesso. Pelo menos sete mortes já foram confirmadas. O Estado sobrevoou ontem a região com um helicóptero do Exército e percorreu a pé uma das áreas mais afetadas do Morro do Baú. Morros exibem rastros de árvores arrastadas pela lama, como se fossem cicatrizes no meio do verde. Casas se transformaram em destroços e memória. O cheiro de fezes e de urina já se mistura com o odor podre dos animais mortos.Pelo menos 65 moradores dormem nas dependências da igreja da região, dividindo poucos colchonetes, racionando água e tentando ajudar. Eles inclusive já separaram caixões de madeira para enterrar as vítimas que ainda não foram encontradas. Há caixões para adultos e crianças. "A gente sabe que tem mais gente morta por aqui porque há muitos desaparecidos e a avalanche de terra foi instantânea", recorda o desempregado Cleber Alves, de 31 anos, que perdeu a casa e agora está abrigado na igreja do Baú. Os militares e civis que trabalham agora no Baú têm mais uma preocupação pela frente - as chuvas que estão previstas para este fim de semana. Pelo menos seis helicópteros estão incessantemente levando mantimentos e remédios para as áreas mais distantes da região. "Se realmente chover, vai ser outra tragédia, os morros vão começar a desmoronar novamente", prevê o subtenente José Eduardo Fabres de Jesus. Outras localidades continuam com o acesso complicado para quem trabalha no resgate. Apesar de o governo de Santa Catarina afirmar que não há mais lugares isolados, pelo menos cinco comunidades de Blumenau e dois bairros do município de Garcia só são acessíveis por helicóptero ou por grandes jipes do Exército. Os militares também se preocupam com a segurança pública. Além de boatos estupros na periferia de Blumenau e do Baú, há relatos de que pessoas com fardas falsas do Exército estão entrando nas casas para roubar. No entanto, o tenente-coronel Dalri, comandante das operações na região, nega esse tipo de ocorrência."Já vi pessoas com armas à noite, rondando as casas para ver se há algo de valioso", diz o policial civil de Blumenau Marcos Augusto Pomarim. "Soubemos até de criminosos que estão indo aos abrigos para checar se há alvos valiosos e para descobrir quais casas estão abandonadas. A natureza humana é assim, há voluntários que estão há dias sem dormir apenas para ajudar a sua comunidade, enquanto há pessoas que só querem se aproveitar."

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