Era só uma visita médica. Virou o resgate de 41 famílias

Risco de deslizamento fez posto de controle ser evacuado; moradores não queriam abandonar a região

Filipe Araújo e Luiz Alves, O Estadao de S.Paulo

02 de dezembro de 2008 | 00h00

Um posto de controle das equipes de resgate montado no alto do Braço do Francês, que pertence à cidade de Luiz Alves, teve de ser evacuado às pressas ontem. Era para ser apenas uma visita médica a uma mulher com fratura na perna e a entrega de provisão de água para uma comunidade vizinha. De repente, veio a informação de que a missão viraria uma retirada emergencial de 41 famílias. Três helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) foram mobilizados. Era fim de tarde, e o teto para as aeronaves estava se fechando.A equipe do Para-Sar, um esquadrão da Aeronáutica especializado em salvamentos de difícil acesso, fez o resgate. O ortopedista Felipe Lessa, médico-militar, chegou ao abrigo e logo viu que a dona de casa Nadir Maria Schmit, de 52 anos, não poderia ficar mais no morro isolado. A pressão dela estava alta demais. "Eles não contavam com assistência médica e, sem medicação, seguramente o quadro dela poderia piorar", avaliou Lessa.Já do alto do Braço do Francês, podia-se ver o risco que as 41 famílias corriam. Era possível ver um deslizamento recente com várias rachaduras. Abaixo delas, o abrigo. Uma enorme fatia de uma plantação de eucaliptos havia sido arrancada. Não fossem as quedas de barreira, o lugar é um cartão-postal.O helicóptero Super-Puma, da FAB, que levava a equipe médica, pousou num campo de futebol. Os moradores já estavam reunidos. Muitos não queriam sair. O aposentado Benito Santos Miguel da Silva, de 72 anos, garantia que o vento daquela tarde só iria resfriar o ambiente. "Meu pai sempre dizia que, se vier ?viração?, ela se desmancha no ar. Não é o vento do Sul, que vira chuva." E, embora admitisse ter assistido a várias quedas de barreira morro abaixo, não via porque deixar a casa.MUDANÇA DE IDÉIAOutro morador, Ingo Rupert, de 66 anos, insistia em ficar até que pensou nos filhos pequenos, oito no total, e decidiu que era melhor deixar de ser teimoso e embarcar no helicóptero. Lucas, no seu colo, chorava muito. Talvez por causa do barulho ensurdecedor das aeronaves. No vôo de resgate, só o sargento Evandro do Espírito Santo, também do Para-Sar, resolveu a situação. Ele dava risadas, brincava com o menino que voava pela primeira vez. "Nossa missão não é só resgatar a qualquer custo. Precisamos também acalmar as pessoas", dizia Espírito Santo. Naquela hora, com tantas crianças pequenas da família Rupert na aeronave, o militar pensou na família, a filha Gisele e a mulher, Marisa. E também no bebê que o casal perdeu menos de um mês atrás.Nadir Maria Schmit, a única a não apreciar a paisagem de dentro do helicóptero, contou que sofreu uma fratura "de fora a fora" ao tentar atravessar um rio de forte correnteza. Foi salva pelo filho. "Era muita água, que invadiu uma lagoa. Quando botei o pé, fui junto para baixo", contou Nadir. Na quinta-feira, ela foi ao médico de Luiz Alves, e teve a perna engessada. O gesso, porém, já não estava tão firme. Agora, em Itajaí, para onde foi levada, Lessa terá a certeza de que sua paciente vai ficar bem.

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