Erro em teste de drogas em mamadeira gera discussões no IC

O erro do teste preliminar sobre a existência de cocaína na língua da criança que morreu há 40 dias, no Pronto Socorro de Taubaté, no Vale do Paraíba, está provocando uma discussão polêmica entre os profissionais que trabalham nas unidades do Instituto de Criminalística (IC) do Estado de São Paulo. Questões como "até que ponto este teste é seguro e pode colocar alguém atrás das grades?" e "o procedimento deveria ser substituído?" são apenas algumas levantadas no momento.Vitória Maria Iori Carvalho, de 1 ano e 3 meses, estava internada com quadro de pressão baixa, sonolência, baixa freqüência cardíaca e há quatro meses apresentava convulsões. Era acompanhada pela mãe Daniele do Prado Toledo, presa em flagrante, acusada de matar a própria filha com cocaína na mamadeira. Antes de morrer a criança vomitou e a médica que estava de plantão viu um pó branco no vômito. Decidiu chamar a polícia para que a perícia fosse feita. A secreção e a mamadeira foram enviadas ao Instituto de Criminalística de Taubaté que constatou, em teste preliminar feito duas vezes, a presença de cocaína.O delegado Paulo Roberto Rodrigues, que prendeu a mãe em flagrante, pediu mais um exame ao IC com foto do material para que não houvesse dúvida. "Nos dois testes deu a presença de cocaína. O delegado, diante do laudo pericial, não poderia solar Daniele. Estaria prevaricando", disse nesta quarta, ao Estado, o delegado seccional de Taubaté, Roberto Martins de Barros. O Código de Processo Penal determina a prisão em flagrante mesmo diante da prova preliminar, para que se aguarde o laudo conclusivo.Apesar dos dois exames preliminares, o teste feito posteriormente, no IC de São José dos Campos, por meio de outro procedimento, provou a ausência de cocaína. As vísceras, o sangue e a urina da criança também foram recolhidos e enviados para o IC em São Paulo, que, segundo informações não oficiais, também teriam dado negativo. "Ainda não sabemos o resultado", disse a advogada que defende Daniele, Gladiwa Ribeiro.AnalgésicosA margem de erro no teste preliminar é de 10%, segundo os técnicos que trabalham no IC. Somente no IC de Taubaté, que atende a dez municípios do Vale do Paraíba, são realizados de 60 a 70 testes por mês.O teste provisório é feito com gotas dos reagentes ticianato de cobalto e ácido clorídrico. Os dois reagentes são comprados pelo governo do Estado e enviados para a unidade do IC em São José dos Campos, que dissolve os produtos e encaminha, embalado, para as outras unidades da região. Se a substância suspeita, ao receber as gotas dos reagentes, ficar rosa e em outra amostra, azul, constata-se a presença de cocaína. Erros ocorrem principalmente quando a pessoa tomou analgésicos, que podem mascarar o resultado.Já o teste definitivo é feito em laboratório por um procedimento chamado de cromatografia de camada delgada. A substância a ser testada é colocada em um vidro que contém uma camada de gel siliconado. Com o vapor de três reagentes, a substância suspeita caminha sobre este gel. O material separa-se por meio da densidade e depois é feita a revelação. Cores também indicam, neste teste, a presença ou não do entorpecente. Neste caso o acerto é em 99%. Os testes na mamadeira e no vômito foram refeitos no IC em São Paulo para comprovar a ausência de cocaína.Depois de comprovada a ausência da droga, Daniele foi libertada, na terça, 5, da penitenciária de Tremembé. Na primeira noite em que voltou pra casa, mal conseguiu dormir. Lembrava da filha, via os objetos da criança e ainda tentava entender a reviravolta em sua vida. Na manhã desta quarta, 6, foi a São Paulo participar de uma entrevista e ao retornar decidiu se afastar um pouco da imprensa. "Ela precisa desta pausa, está cansada, vai se resguardar um pouco", disse a advogada Gladiwa Ribeiro.A defesa vai pedir o arquivamento do processo no Tribunal de Justiça, mas aguarda o laudo das vísceras, sangue e urina. Também pretende ingressar com uma ação indenizatória contra o governo do Estado. A revolta de Daniele e da família dela, além do resultado errado no exame, foi com as agressões sofridas na cadeia pública de Pindamonhangaba. Segundo a polícia, não havia vaga em outra cadeia e, por este motivo, Daniele foi colocada entre 19 presas.EstuproMesmo tendo provado sua inocência, Daniele ainda terá que retornar à delegacia para novos depoimentos sobre a acusação de estupro feita contra um estudante de medicina da Universidade de Taubaté. O estupro foi confirmado por exame de corpo de delito do IML, mas a falta de sêmen no órgão genital de Daniele impediu o confronto, por meio de exame de DNA, com o sangue do suposto agressor.O estudante nega conhecer Daniele, que o reconheceu por foto e garante que foi vítima da violência sexual enquanto acompanhava a filha internada no mês de outubro. O Hospital Universitário também abriu sindicância para apurar o fato.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.