Erros humanos e falhas técnicas causaram acidente do voo 447

Relatório menciona perda de dados, procedimentos de emergência inapropriados e ausência de preparo da tripulação

Andrei Netto de, O Estado de S. Paulo,

04 Julho 2012 | 17h20

Peritos independentes contratados pela Justiça da França indicaram em relatório ao Ministério Público de Paris que pelo menos três fatores foram decisivos para a queda do voo AF-447, Rio-Paris, no Atlântico, em 30 de maio de 2009:  falhas técnicas, deficiência de treinamento e erros de pilotagem.

As conclusões, reveladas por um sindicato de pilotos da França, lançam dúvidas sobre as companhias envolvidas e sobre agências de aviação civil da Europa, e devem nortear o processo judicial, no qual Air France e Airbus respondem por homicídio culposo, não intencional. Hoje, uma segunda perícia será conhecida: o relatório do Escritório de Investigação e Análises para a Aviação Civil (BEA).

Mil e cem dias foram necessários para que a opinião púbica conhecesse, enfim, as causas do acidente com o Airbus A330. O documento indica que o piloto Marc Dubois, 58 anos, e seus copilotos, David Robert, 37 anos, e Pierre-Cedric Bonin, 32, teriam tomado decisões erradas durante os quatro minutos de queda, mas essas ações teriam sido causadas por falhas mecânicas e eletrônicas no avião e por falta de treinamento apropriado. O papel das autoridades de aviação civil da França e da Europa também será questionado.

O relatório dos peritos contratados pela Justiça foi entregue na segunda-feira, 2, aos advogados das famílias de vítimas, mas não podia ser revelado antes de ser encaminhado aos parentes. Ontem à noite, o Sindicato Nacional de Pilotos de Linha (SNPL France Alpa) divulgou uma nota oficial em que comenta as conclusões.

"O relatório judiciário questiona a concepção do avião, os procedimentos utilizados pelo A330 no momento do acidente, a formação da tripulação por sua companhia, a atuação imperfeita da tripulação, assim como falhas gritantes no acompanhamento pelas autoridades dos múltiplos incidentes similares que precederam o acidente", diz em nota o presidente do SNPL, Yves Deshayes.

Entre os órgãos questionados, estão a Direção-geral de Aviação Civil (DGAC) da França e a Agência Europeia de Segurança Aérea (EASA), que teriam menosprezado a importância das falhas apresentadas pelos tubos de pitot, os sensores de velocidade, que congelaram durante o voo.

No caso dos aviões fabricados pela Airbus, esses equipamentos orientam todos os instrumentos eletrônicos de navegação, que auxiliam os pilotos. Os sensores fabricados pela companhia francesa Thales e que equipavam os aviões Airbus da Air France apresentaram falhas similares mais de uma dezena de vezes antes da queda do voo Rio-Paris, que matou 228 passageiros e tripulantes, entre os quais 58 brasileiros.

Essa "falha de acompanhamento" dos incidentes é denunciada como inadmissível pelo sindicato. "A SNPL France Alpa se indigna de ver que a EASA, o organismo responsável pela certificação das sondas pitot () se recusa a colaborar com a juíza de instrução e com os experts da investigação", protesta a união de pilotos.

O 'Estado' tentou contatar a EASA na noite da última terça-feira, mas não obteve retorno. A juíza de instrução do caso, Sylvia Zimermman, não fala a respeito do caso. Nem a Airbus, nem Air France fazem comentários sobre os relatórios antes de sua divulgação oficial. O documento entregue à Justiça só será apresentado às famílias de vítimas em 10 de julho.

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