Escavação revela novo capítulo carioca

Após obra no MPE, cidade descobre que morro foi habitado por ricos

Talita Figueiredo, O Estadao de S.Paulo

02 de dezembro de 2008 | 00h00

Achados arqueológicos nas obras de construção da garagem subterrânea do prédio do Ministério Público Estadual (MPE), no Rio, revelam fragmentos de uma história desconhecida da cidade. Os milhares de pedaços de azulejos holandeses datados do século 19 encontrados nos últimos dez meses atestam que no antigo Morro do Castelo também havia casas ricas. O morro foi demolido nos anos de 1920 sob a alegação de que impedia a circulação do vento que vinha da Baía de Guanabara e que nele habitava população doente e pobre.As escavações encontraram ainda centenas de ossos, humanos e de animais, diferentes tipos de garrafas, potes de ungüento, tinteiros, cerâmicas, vários tipos de louças portuguesas e inglesas. " É uma quantidade impressionante de azulejos decorativos de uma variedade extraordinária. Também encontramos telhas de beiral pintadas e pedaços de estátuas de jardim. Portanto, é possível afirmar que, ao contrário do que se supôs durante todos esses anos, no morro havia, sim, uma parte rica e uma parte de classe média. Um dos aspectos mais profícuos da arqueologia é esse: mostra a história real. A escrita, muitas vezes, pode ser tendenciosa", afirma a doutora em Arqueologia do Museu Nacional, que coordena as escavações, Tânia Andrade Lima. A arqueóloga lembra que o Morro do Castelo foi o berço do Rio. "Foi nele que se instalaram os primeiros prédios públicos por ele estar numa posição defensiva, de frente para a Baía de Guanabara. Nele foram erguidas a Casa de Câmara e Cadeia, a Sé e o Colégio dos Jesuítas. Foi o núcleo inicial do desenvolvimento da cidade do Rio", diz. As obras de construção de uma praça ao lado dos prédios do MPE, onde haverá a garagem subterrânea, começaram em agosto do ano passado. O primeiro achado, em dezembro do ano passado, foi uma grande amurada de contenção da Praia de Santa Luzia, erguida, provavelmente, no século 19. A obra foi imediatamente suspensa, uma licitação foi feita e contratou-se uma equipe de arqueólogos para descobrir o que mais havia ali. O canteiro de obra tem 11 mil metros quadrados e em diversos pontos foram encontrados objetos. Os mais antigos são louças portuguesas dos séculos 16 e 17. A grande maioria dos achados é de artefatos do século 19, resíduos das moradias do morro. Os ossos humanos, segundo Tânia, devem ser de escravos, já que ao lado de onde hoje é a Santa Casa de Misericórdia, próximo ao MPE, havia um cemitério de indigentes. Ali também, conta a história, havia um grande matadouro, o principal da cidade, de onde teriam vindo os ossos de animais. Uma curiosidade, que chamou também a atenção da arqueóloga, é a grande quantidade de potes de mostarda francesa encontrados até agora. Ao fim da obra, o material coletado será todo catalogado para um livro e, posteriormente, exposto ao público numa grande mostra. Por causa das descobertas, as obras da garagem atrasaram e, em vez de serem inauguradas neste ano, devem ficar prontas apenas em março do ano que vem. Algumas adaptações precisaram ser feitas, como modificar as estacas de perfuração e contratar equipamentos adequados para escavação. A chefe da equipe de campo, Gláucia Sene, destaca também o trabalho dos operários da obra. "Eles foram apresentados à história da cidade e passaram a olhar a terra de forma diferente. Tudo que encontram eles guardam de forma adequada e alguns já aprenderam a identificar quando são ossos humanos e de animais", conta.

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