Escola tem 7 salas destruídas para ganhar estacionamento

Prefeitura abre sindicância; em outras escolas, alunos terão de estudar em salas de madeira

Diego Zanchetta e Valéria França, O Estadao de S.Paulo

09 de fevereiro de 2008 | 00h00

Às vésperas do início das aulas, a Escola Municipal de Educação Fundamental (Emef) Euclides da Cunha, no Capão Redondo, zona sul, tem um grande problema: realocar mil alunos que ficaram sem sala de aula. No fim do ano, sete classes foram derrubadas para dar lugar a um "estacionamento", segundo a Secretaria da Educação, que abriu sindicância para apurar a responsabilidade. Enquanto o caso é investigado, a diretora Aparecida dos Santos Camargos ficará afastada do cargo.A escola está em obras desde julho. Na época, um prédio moderno de três andares começou a ser levantado, num terreno que dá para os fundos do edifício. O prédio atual, onde as crianças estudam, parece mais um galpão velho e muitas vezes ficou submerso pelas águas da chuva. O problema teria surgido durante o recesso da escola, entre 22 e 31 de dezembro, quando alguém teria autorizado a demolição das sete classes. Segundo a secretaria, com a destruição das salas, 21 turmas de 1ª a 4ª séries teriam de estudar em rodízio. "Foi uma decisão esdrúxula, tomada por uma professora que estava interinamente como diretora. Sem autorização, ela aproveitou a reforma que estava sendo realizada nas férias e pediu aos pedreiros que derrubassem as salas. Quero saber se ela teve algum apoio de outros servidores", disse o secretário da Educação, Alexandre Schneider. A diretora limitou-se a negar a acusação, mas não deu entrevista. "Ela não tem culpa. Sei porque fiscalizo as obras", diz Zuleide Barbosa, vice-presidente do Conselho de Pais da escola. "Quando ela voltou do recesso do fim do ano, as classes estavam no chão. Pelo que sei, a autorização partiu do engenheiro que toca as obras para que os caminhões pudessem passar com o material do prédio novo."Segundo um especialista no setor, o professor da Faculdade de Educação da USP Vitor Paro, a responsabilidade pela derrubada das salas não é só da diretora, mas principalmente da Prefeitura, por hierarquia. "Para começar, a diretoria deveria ter notificado a Prefeitura antes de fazer a obra. Se não tiver de pedir licença, é o fim do mundo. O imóvel é da Prefeitura."Além disso, afirmou, a Prefeitura tem de fiscalizar a administração das escolas. "Para isso existem os supervisores de ensino, que checam o funcionamento das instituições e levam demandas à Secretaria de Execução." Ele afirmou que o Executivo deve investigar se houve a fiscalização da Emef ou conivência de alguém da Secretaria de Educação para a derrubada das salas. "Antigamente, o Estado mostrava preocupação com a fiscalização porque quem estudava nas escolas públicas eram filhos de ricos. Hoje é comum ouvir de diretores que os supervisores passam nas escolas só para constar."Na unidade estão matriculados 2.019 alunos, divididos em três turnos. Segundo ofício da diretoria, eles passariam a estudar em turnos de duas horas, mas em 60 dias as aulas voltariam ao normal e a carga horária seria reposta. "Alunos e pais seriam avisados só na segunda-feira, quando começam as aulas", criticou Schneider.Agora, os pais receberão proposta de transferência para duas unidades a cerca de 3 quilômetros da Emef - o Centro Educacional Unificado (CEU) Cantos do Amanhecer e a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Paulo Zingg. Schneider estima que apenas entre 60 e 90 dias a reforma estará feita e os alunos poderão voltar. "Vamos oferecer transporte gratuito para as crianças transferidas. Se os pais não aceitarem, vamos discutir alternativas."Enquanto isso, em São Mateus, na zona leste, cerca de 1.800 alunos da Emef Júlio de Grammont voltarão às aulas em 15 classes de lajes pré-moldadas, sem ventilador. A líder comunitária Rose do Nascimento conta que a escola foi construída há 15 anos em caráter emergencial e nunca passou por reformas. No ano passado, a comunidade conseguiu que a Prefeitura começasse as obras de uma nova escola no local. Serão investidos R$ 2 milhões na obra. Mas o término está previsto para maio. No Jardim Santo André, também zona leste, a Emef Thereza Maciel de Paula voltará às aulas com seis classes de madeira. A escola atende alunos de 1ª a 8ª série e tem turmas de adultos. O secretário diz que, de acordo com laudo técnico da Prefeitura, as salas de madeira não foram trocadas por problema no solo. Não há previsão para a troca.

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