Antonio Lacerda / EFE
Antonio Lacerda / EFE

Escolas do Rio homenageiam personalidades, destacam a África e lembram a gripe espanhola

Na volta ao Sambódromo após mais de dois anos, só duas escolas vão abordar diretamente a covid-19; ator Paulo Gustavo, morto pela doença, será homenageado

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2022 | 10h00

RIO - Após dois anos e 53 dias em silêncio devido à pandemia de covid-19, as doze escolas de samba da elite do carnaval do Rio voltam a desfilar pelo Sambódromo na Marquês de Sapucaí a partir das 22h desta sexta-feira, 22. Cancelado em 2021, o desfile foi adiado este ano por 54 dias. Na data oficial do carnaval, em fevereiro, a disseminação da covid-19 ainda era considerada perigosa. Por isso, pela primeira vez as escolas desfilam depois do feriado da Páscoa e para muitos tem a marca da redenção.

A TV Globo vai transmitir, a partir das 22h45. A primeira escola de cada dia, que vai se apresentar até as 23h10, terá apenas um pequeno trecho televisionado.

Os enredos podem ser divididos em três grupos. Quatro escolas (Imperatriz Leopoldinense, Mangueira, São Clemente e Unidos de Vila Isabel) vão homenagear personalidades. Outras quatro (Portela, Mocidade Independente, Unidos da Tijuca e Grande Rio) vão discorrer sobre elementos considerados sagrados por religiões africanas ou pela cultura indígena. Três escolas (Salgueiro, Beija-Flor e Paraíso do Tuiuti) vão exaltar os negros e sua cultura.

A única escola que não se encaixa nessa divisão é a atual campeã, Unidos do Viradouro. Ela vai relembrar o carnaval de 1919, o primeiro após a pandemia de gripe espanhola, que matou 35 mil pessoas no Brasil. Antes da covid-19, era considerada a maior pandemia da história. O carnaval de 19 é considerado lendário, pela alegria com que os cariocas comemoraram o fato de terem sobrevivido à doença.

Embora este seja o primeiro desfile após a pandemia de covid-19, a doença só deve ser tema mais central nos enredos da Viradouro e da São Clemente. Esta homenageará o ator Paulo Gustavo, morto pela doença. Críticas políticas também podem surgir, mas não há previsão de nenhum ataque mais contundente ao presidente Jair Bolsonaro (PL). Reclamações contra a inflação e as denúncias de corrupção no governo federal devem ficar mesmo para os blocos de rua. Neste ano, vão desfilar sem nenhum apoio da prefeitura.

A primeira noite de desfiles na Sapucaí concentra três homenagens a personalidades, duas exaltações à cultura negra e a visita ao carnaval de 1919. A primeira escola a desfilar será a Imperatriz Leopoldinense, que foi rebaixada em 2019 e venceu o desfile da segunda divisão em 2020, garantindo o retorno à elite.

A escola vai homenagear o cenógrafo, figurinista e carnavalesco Arlindo Rodrigues (1931-1987), responsável pelos dois primeiros títulos da Imperatriz, em 1980 e 1981. O enredo foi proposto pelo presidente de honra da escola, o contraventor Luizinho Drummond, muito amigo do carnavalesco. Drummond morreu em julho de 2020, vítima de um acidente vascular cerebral. Mas a escola manteve o enredo, desenvolvido pela carnavalesca Rosa Magalhães. 

No início da carreira, ela foi subordinada ao próprio Rodrigues. Rosa estreou no universo das escolas de samba em 1971, como figurinista do Salgueiro, na equipe de Arlindo. Dali em diante, Rosa foi parceira e rival do amigo, a quem agora presta homenagem.

A segunda escola a desfilar será a Mangueira, que vai homenagear três ícones da escola. São eles o compositor e fundador Cartola (1908-1980), o intérprete Jamelão (1913-2008) e o mestre-sala Delegado (1921-2012). Reconhecido pelos enredos de cunho social, o carnavalesco Leandro Vieira vai expor as dificuldades do povo negro e pobre até a conquista do reconhecimento em razão de suas artes (o canto, a dança e a poesia, neste caso). Antes do sucesso profissional, esses artistas trabalharam como pedreiro, engraxate, entregador de jornal, apontador de jogo do bicho e fiscal de feira livre.

A terceira agremiação a se apresentar será o Salgueiro. Em seu enredo “Resistência”, a escola vai retratar os lugares do Rio de Janeiro que se tornaram símbolos históricos da cultura negra, como a Praça XI, palco dos primeiros desfiles das escolas de samba, na década de 1930. O morro do Salgueiro (zona norte), sede da escola, também será retratado, porque abrigou um quilombo.

Em seguida, a São Clemente fará homenagem ao ator Paulo Gustavo, que morreu em maio de 2021 vítima de covid-19. A mãe dele, Déa Lúcia Vieira Amaral, inspiradora do monólogo “Minha mãe é uma peça”, criado pelo filho e que inspirou uma série de filmes, vai desfilar na comissão de frente.

A Viradouro vai apresentar o carnaval de 1919 por meio de uma carta de amor escrita por um pierrô a uma colombina na Quarta-Feira de Cinzas daquele ano.

A Beija-Flor será a sexta e última escola a desfilar na primeira noite, com o enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”. Vai exaltar os negros que não tiveram o reconhecimento merecido, a partir de exemplos de pessoas ligadas à própria escola. São pessoas como Silvestre David da Silva, o Cabana (1924-1986), o diretor de carnaval Laíla (1943-2021) e a porta-bandeira Selminha Sorriso. Ela, aos 50 anos, comemora 30 anos de parceria com o mestre-sala Claudinho. Os dois formam o mais antigo casal de mestre-sala e porta-bandeira em atividade na Sapucaí.

Cada escola tem de uma hora a 70 minutos para desfilar. Cada noite de exibições deve terminar por volta das 5h do dia seguinte. A apuração vai acontecer na terça-feira, 26. As seis escolas com melhores colocações voltarão a se exibir no desfile das campeãs, no sábado, 30.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.