Escritórios são acusados de fraudar documentos para obter visto dos EUA

Consulado dos EUA apresenta denúncias semanais; despachantes ocupavam até fundos de estacionamentos

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

14 Agosto 2009 | 00h00

A Polícia Civil de São Paulo cumpriu ontem mandado de busca e apreensão em cinco escritórios de despachantes da zona sul, suspeitos de fornecerem documentos falsos a brasileiros para conseguirem visto de entrada nos Estados Unidos. Funcionários desses estabelecimentos - dois deles localizados nos fundos de estacionamentos e outro, em uma lan house - abordavam interessados logo que chegavam ao consulado, oferecendo "facilitação" dos procedimentos. A polícia abriu inquérito para investigar falsidade ideológica, falsificação de documentos e formação de quadrilha - e acredita que o esquema era ligado a escritórios clandestinos de Espírito Santo, Minas, Paraná e Santa Catarina.Desde abril do ano passado, policiais do Setor de Investigações Gerais da 6ª Seccional de São Paulo, em Santo Amaro, investigam os escritórios, localizados na frente do consulado. Na operação de ontem, a polícia deteve 15 funcionários e representantes dos escritórios suspeitos de participarem do esquema, que foram ouvidos e liberados. A denúncia partiu do consulado, que constatou falsificação em declarações de Imposto de Renda, comprovantes de residência, registros de holerites, escrituras de imóveis e documentos comprobatórios de propriedade de veículos - segundo a polícia, há denúncias "semanais" da representação americana. Os "facilitadores" cobravam entre R$ 4 mil e R$ 25 mil pelos documentos. Ao menos cem pessoas, segundo a polícia, já tentaram adquirir documentos falsos por meio do esquema, desde que se iniciaram as investigações. "As pessoas também cometem crime, porque sabem que estão comprando documentos que não existem", disse o titular do SIG, Paulo Pereira de Paula. "Numa checagem simples na Receita, o consulado descobre a fraude. Os mentores do esquema sabem disso, mas as pessoas, não. Muitas têm má-fé, mas há quem possa ser visto como vítima também, desesperado para sair do País."Só neste ano, segundo ele, a 6ª Seccional abriu 30 inquéritos para apurar falsificação de documentos. Em outros Estados, a polícia acredita na participação de pelo menos 40 pessoas. "Vamos nos coordenar com outras polícias para tentar desbaratar os braços desse tipo de hábito em suas regiões também", disse de Paula. As investigações tiveram início quando o Consulado Americano denunciou um ônibus vindo de Belo Horizonte (MG), cuja maioria dos passageiros teria apresentado documentos falsificados. Na ocasião, ao menos dez pessoas admitiram terem falsificado documentos. "Faltava encontrar como funcionava o esquema em São Paulo", disse o delegado. Na operação de ontem, foram apreendidos cinco CPUs, um notebook e documentos dos escritórios.?DENÚNCIAS FALSAS?Em depoimento, os escritórios negaram falsificar documentos. "As denúncias são falsas, apresentadas por concorrentes", disse Neusa Lima, diretora da Beta Vistos. "Vamos colaborar com a polícia, até que a averiguação chegue ao fim e percebam que não há nada." O consulado disse "colaborar com as investigações", mas não entrou em detalhes sobre as denúncias. Diariamente, 1,5 mil pessoas são entrevistadas em São Paulo - dessas, pelo menos 10% têm vistos negados.

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