'Escudo tucano' em SP desafia petistas

Diagnóstico feito a partir do resultado das eleições deste ano e passadas deixa PT em estado de alerta e reformulação de estratégias entra na pauta

Malu Delgado, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2010 | 00h00

O Estado de São Paulo tem se mostrado como uma espécie de escudo eleitoral que o PT não consegue transpor. O diagnóstico, feito a partir do resultado das eleições deste ano e de pleitos passados, deixa dirigentes do partido em Estado de alerta e exige uma reformulação de estratégias para disputas futuras.

O PT progressivamente aumenta sua penetração entre segmentos populares e de baixa renda, mas seu discurso não tem comovido o eleitor paulista de classes médias mais conservadoras, mais escolarizado e de maior renda nas últimas eleições. As crises de 2005 e 2006 do PT, o mensalão e o dossiê dos aloprados, explicam essa resistência eleitoral, segundo os próprios petistas.

Ainda que José Serra (PSDB) tenha vencido Dilma Rousseff (PT) no Estado por 54,05% a 45,95%, e os petistas tenham considerado o resultado "não catastrófico", ficou evidenciada a dificuldade de captar votos de eleitores de Marina Silva (PV) no primeiro turno do pleito.

Na capital, o tucano superou a petista por 53,64% a 46,36% dos votos válidos. O mapa de votação na capital em 2008 e 2010, respectivamente nas eleições municipal e presidencial, é um exemplo do bom desempenho do partido nas periferias e da resistência que enfrenta em regiões de renda mais elevada (ver arte ao lado).

Lula. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou a dirigentes do partido que vai se dedicar pessoalmente às reformulações e articulações necessárias para fortalecer a sigla nas disputas municipais de 2012.

"O fato é que o PT ainda não conseguiu estabelecer um diálogo com os eleitores paulistas no sentido de ter a maioria dos votos, embora nesta eleição (a governador) quase tenha tido segundo turno em São Paulo", admite o presidente nacional do partido, José Eduardo Dutra.

Aloizio Mercadante (PT) não conseguiu ir para o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB) por 72.571 votos. O petista teve, porém, o melhor desempenho eleitoral (35,23% dos votos válidos) do partido se consideradas as eleições a governador desde 1998, quando Marta Suplicy , derrotada por Mário Covas, obteve apenas 22,18% dos votos.

"Ganhamos prefeituras importantes no Estado, mas não temos conseguido atrair o voto da maioria do povo paulista. É um desafio não só para o PT de São Paulo, mas para o PT do Brasil", acrescenta Dutra.

Segundo ele, o PT já se consolidou como um partido nacional, mas a importância de São Paulo, berço do partido, não pode ser desconsiderada para a sobrevivência política. "O PT já é um partido nacional. Eu não embarco nesta dicotomia que alguns embarcaram dentro do PT de que existe um PT paulista e, portanto, deve existir um PT para se contrapor ao PT de São Paulo. Isso não existe."

Sem querer impor "lições" ao PT de São Paulo, Dutra reconhece que "o PT do Brasil tem que ajudar o PT de São Paulo a encontrar um melhor discurso para ganhar mais votos no Estado".

Agenda. O presidente do PT no Estado, Edinho Silva, já levou o problema à executiva partidária na última semana e preparou um cronograma de seminários pelo Estado ao longo do ano de 2011 para tentar reaproximar o PT de setores da juventude e acadêmicos. Para ele, essa é uma agenda urgente para o partido que não pode ser adiada.

"As eleições mostraram que temos uma dificuldade eleitoral maior onde setores de classe média são mais extensos. O balanço nacional mostra que há uma resistência dos setores médios ao PT, e é em São Paulo onde encontramos a maior dificuldade", reconhece Edinho Silva. O petista defende, ainda, que o PT seja oposição crítica a Alckmin, mas apoie projetos que forem considerados positivos para o Estado.

"Se ele apresentar um projeto repensando o modelo de desenvolvimento do interior do Estado, por exemplo, por que o PT precisa ser contra?", indaga.

O presidente nacional do PT sugere que seja feita uma "análise do perfil político e socioeconômico do Estado" para checar "quais são os anseios da maior parte da população paulista e ver em que o atual discurso do partido se choca com esses anseios".

"Não tenho como dar lição para o PT de São Paulo e os paulistas, mas o PSDB já vai para 20 anos de governo. Isso mostra que o PT de São Paulo tem que encontrar seu caminho", diz o sergipano José Eduardo Dutra.

Armadilha. Para o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante e prefeito de Osasco, Emídio de Souza, "o PT precisa fugir da armadilha de ser um partido das periferias".

O prefeito cita alguns exemplos. Em Francisco Mourato, onde predomina uma população de baixa renda, a vitória de Dilma foi avassaladora.

Em cidades médias como São Caetano, São José dos Campos e Campinas a derrota petista é mais retumbante. "Nas dez maiores cidades do Estado o PT só ganhou em Osasco e São Bernardo", disse.

Ainda que se sinta frustrado por conta de a disputa no Estado não ter ido para um segundo turno por tão poucos votos, Emídio de Souza destaca que há uma evolução eleitoral gradual: "São Paulo está deixando de ser uma cidadela intransponível para o Partido dos Trabalhadores".

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