Silvia Izquierdo/AP
Silvia Izquierdo/AP

Esgoto aflige áreas do Rio e representa perigo diário para a saúde

Menos da metade das residências brasileiras são conectadas a redes de saneamento; para especialista, sistema é 'medieval'

Jenny Barchfield, Associated Press

10 Setembro 2015 | 09h00

RIO - Filetes de água suja cruzam o labirinto de vielas que servem como parquinho para Kaike de Oliveira Benjamin, de 5 anos, formando poças fétidas e escuras e riozinhos borbulhantes de resíduos e lixo. Não é muito melhor dentro da minúscula moradia de um só cômodo que ele divide com a mãe, dois irmãos pequenos e infestações de baratas e ratos. Quando chove, a casa subterrânea fica inundada até a altura dos tornozelos com uma mistura fétida de águas pluviais e esgoto, e a água potável com frequência sai da torneira com aparência e cheiro de contaminada.

A falta de saneamento básico no Rio de Janeiro está nas manchetes porque os atletas olímpicos vão competir em águas poluídas nos jogos do próximo ano, mas não é novidade em áreas como a avela da Rocinha, onde o contato com lixo não tratado é uma realidade cotidiana para os Benjamin e milhares de outras famílias.

As consequências não são passageiras - elas reverberam por décadas, condenando muitas crianças expostas a essa sujeira a uma vida tolhida por doenças.

Um especialista em saúde pública classifica o sistema de esgotos do Rio como essencialmente "medieval", comparável a Londres ou Paris nos séculos XIV ou XV.

E não é só no Rio. Menos da metade das residências brasileiras são conectadas a redes de esgotos, o que significa que boa parte das águas residuais geradas por cerca de 100 milhões de pessoas em toda essa nação do tamanho de um continente corre por valas ao ar livre que cortam áreas como a da casa de Kaike, sujando riachos e rios que, por sua vez, contaminam lagos e lagoas, praias e baías.

Da favela onde mora Kaike, um emaranhado de casas de concreto e tijolos espalhadas por toda a extensão de várias encostas, as águas residuais fluem diretamente de canos de plástico branco espetados nos barracos e descem pelo morro, desembocando, em parte, na bacia que termina na lagoa olímpica.

Um estudo independente encomendado pela The Associated Press revelou níveis alarmantes de vírus e, às vezes, bactérias de esgotos humanos em todos os locais onde acontecerão as competições aquáticas nas Olimpíadas. Uma avaliação de risco baseada nos resultados da AP concluiu que os atletas que ingerirem três colheres de chá de água têm uma chance de 99% de ser infectados por um vírus, o que criou alarme entre alguns dos velejadores, remadores, nadadores de maratona, triatletas de elite e canoístas.

Para os moradores da Rocinha e de outras favelas do Rio, porém, isso não é apenas um evento pontual. Eles estão em contato com a água suja dia após dia, semana após semana, ano após ano.

Especialistas em saúde pública dizem que crianças expostas ao esgoto adoecem com mais frequência, têm menos probabilidade de frequentar a escola regularmente e de desenvolver toda a sua capacidade intelectual e, como resultado, acabam conseguindo empregos com salários significativamente mais baixos do que pessoas de situação socioeconômica semelhante que cresceram com saneamento básico.

O irmão de 18 meses de Kaike, Rafael, já sofre constantemente de problemas estomacais e, no ano passado, Kaike ficou hospitalizado por duas semanas com vômitos agudos e diarreia explosiva e sanguinolenta que os médicos atribuíram a bactérias ou vírus contraídos pelo contato com água contaminada.

A mãe dos meninos, Marcele de Oliveira França, não tem dinheiro para se mudar e, assim, não pode proteger os filhos. 

"Não tem como evitar", disse Marcele, mãe solteira de 21 anos que faz bicos como diarista para pagar o aluguel mensal de R$ 300. "Às vezes eu acho que devia tirar os meninos daqui, mas não tem jeito."

Vários clínicos gerais que trabalham nos postos de saúde públicos da Rocinha e de outras favelas do Rio avaliam que até 40% de todos os casos que eles atendem são relacionados a exposição ao esgoto. Entre seus pacientes, casos de gastroenterite, hepatite A e infecções micóticas da pele são os mais comuns.

Crianças pequenas são as mais afetadas, dizem os médicos, provavelmente porque a maioria das pessoas intensifica a produção de anticorpos mais tarde, na adolescência.

Nenhum dos médicos desses postos de saúde públicos quis gravar entrevista, por medo de perder o emprego. O problema dos esgotos tornou-se uma questão política sensível conforme foi ficando claro que as autoridades estaduais e municipais do Rio não conseguirão limpar as águas a tempo para a Olimpíada.

Fernando Garcia de Freitas redigiu vários relatórios de acompanhamento dos impactos de políticas públicas, sanitários e financeiros do drama dos esgotos no Brasil para a organização pró-saneamento Trata Brasil.

"Estamos falando de quase 100 milhões de pessoas que estão sujeitas, em graus variáveis, a esse tipo de subdesenvolvimento", disse Freitas, o especialista que chamou o sistema de esgotos atual de "medieval".

"Os efeitos de nosso atraso no tratamento de esgotos vão bem além do mais óbvio e facilmente perceptível, que é a poluição", observou Freitas. A exposição aos esgotos, disse ele, "afeta a fisiologia das pessoas, afeta seu desenvolvimento psicológico, prejudicando seu desenvolvimento intelectual e, depois, seu desenvolvimento profissional". 

Ele contou que suas pesquisas mostraram que uma criança criada sem um sistema de esgotos adequado chegará à vida adulta ganhando em média 10% a menos que crianças similarmente pobres que, pelo menos, tiveram saneamento básico na infância.

O Dr. Luiz João Abrahão, que dirige a associação de gastroenterologistas do Rio de Janeiro, disse que o problema de esgotos no Rio resultou em níveis endêmicos de doenças causadas pela água contaminada na cidade.

"Diarreia aguda é comum, algo que encontramos em nosso dia a dia aqui", disse Abrahão, que trabalha no Hospital do Fundão, um hospital público de referência localizado em uma ilha na área mais fortemente poluída da Baía de Guanabara.

Os mais afetados, Abrahão acrescentou, são os pobres.

O Brasil é a sétima maior economia do mundo, mas ficou em 84º lugar em acesso a água e saneamento básico entre 178 países no Yale Environmental Performance Index do ano passado, atrás de nações como Turcomenistão, Moldávia, Albânia, Síria e o vizinho Chile. 

O rápido crescimento urbano nas últimas décadas, planejamento deficiente, brigas políticas e instabilidade econômica são grandes culpados, dizem os especialistas.

No Rio, por exemplo, a crise fiscal que abalou o Brasil na década de 1980 praticamente congelou os investimentos em esgotos por duas décadas, e foi necessária mais uma década para que leis repartindo as responsabilidades por esses investimentos entre governo federal, Estados e municípios conseguissem se desembaraçar da burocracia notoriamente vagarosa do país.

Durante esse tempo, a população da área metropolitana explodiu de cerca de 9 milhões em 1980 para 12 milhões hoje, com muitos dos novos residentes se estabelecendo fora da rede de serviços públicos básicos, nas mais de 1.000 favelas da cidade.

As autoridades insistem que vão garantir a segurança das águas nos locais de competições olímpicas possivelmente usando medidas paliativas tais como biorremediação, uma técnica de manejo de resíduos que utiliza organismos microscópicos para degradar contaminantes. No entanto, os especialistas dizem que as medidas planejadas não adiantarão praticamente nada contra os vírus causadores de doenças que são abundantes nas águas.

E as promessas olímpicas oferecem pouco alívio para os moradores das favelas do Rio.

Cerca de 3.000 dos cidadãos mais pobres da cidade vivem no Mandela, uma faixa de favela espremida entre dois rios enegrecidos por esgotos que fluem para a Baía de Guanabara nas proximidades. Os moradores aglomeram-se em casas toscas construídas na beira dos rios, por onde pequenas ilhas de lixo passam flutuando lentamente. A superfície borbulha com a emissão de gases e um fedor sulfúrico envolve tudo.

Cristiane Cândido, uma dona de casa de 37 anos, disse que seus cinco filhos estavam sempre doentes quando pequenos. Agora, é a vez dos netos.

"É diarreia, diarreia, diarreia o tempo todo", disse ela. "Nada melhora aqui, nada. Tudo só piora."

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