Espanha retém 30 brasileiros no aeroporto de Madri

30 brasileiros correm o risco de ser deportados; incidente culmina recusas de entrada de brasileiros no país

Lourival Sant'Anna, enviado especial do Estado,

05 de março de 2008 | 20h20

Trinta brasileiros foram retidos na terça-feira, 4, no Aeroporto de Madri-Barajas e correm o risco de ser deportados. O incidente culmina uma escalada de recusas de entrada de brasileiros na Espanha. O embaixador espanhol em Brasília, Ricardo Peidró, será chamado nesta quarta-feira, 5, ao Itamaraty e ouvirá do secretário-geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, que essas atitudes prejudicam a imagem da Espanha no Brasil. O governo brasileiro considera a possibilidade de começar a negar a entrada de espanhóis no País.   A informação da retenção dos 30 brasileiros chegou ao embaixador do Brasil em Madri, o ex-ministro da Defesa José Viegas Filho, por volta de 21 horas locais (17h em Brasília), quando os escritórios do governo espanhol já estavam fechados. Mas Viegas deverá manifestar quarta-feira, 5, ao chefe de gabinete do chanceler espanhol, Miguel Angel Moratinos, a insatisfação do Brasil com a situação.   O cônsul-geral do Brasil em Madri, Gelson Fonseca, pediu à delegacia de imigração do aeroporto que liberasse os brasileiros, mas o pedido foi negado. Os policiais afirmaram que os brasileiros estavam causando desordem no aeroporto. Entre eles estão dois pesquisadores do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), que pretendiam fazer apenas uma conexão em Madri com destino final em Lisboa, onde tinham compromissos acadêmicos.   Os funcionários da imigração, no entanto, consideraram que eles não tinham provas suficientes de que estavam indo para Lisboa, além do fato de estarem apenas com 250 euros cada um, quando, pelas regras, os passageiros têm de trazer no mínimo 70 euros para cada dia de estada.   A detenção em massa dos brasileiros reflete o recrudescimento da política de imigração da Espanha, um dos temas preferidos da oposição de direita, na campanha para as eleições gerais que se realizam no domingo, 9. O candidato a primeiro-ministro pelo Partido Popular, Mariano Rajoy, defende controle mais rígido da entrada e permanência de estrangeiros, com expulsão imediata daqueles envolvidos em crimes e a obrigação de aderir aos "costumes e valores" da Espanha.   Em 2006, a média mensal de deportações de brasileiros era entre dois e cinco. No ano passado, saltou para dez. Em janeiro deste ano, foram 15 deportados, ou "inadmitidos", segundo o jargão da área. A retenção não significa que todos os brasileiros serão deportados. Seu caso está sendo examinado pelos funcionários da imigração, que têm até 72 horas para liberar sua entrada ou mandá-los de volta para o Brasil.   A Espanha alega que tem sido pressionada pela União Européia (UE) a conter a entrada de imigrantes. Com 43 vôos semanais entre Brasil e Espanha, a prosperidade econômica espanhola e a proximidade do idioma, o país tem sido a porta de entrada dos brasileiros na Europa. Dos cerca de 100 mil brasileiros que vivem na Espanha, algo em torno de 60% estão ilegais.   No âmbito do Acordo de Schengen, que a partir de 1985 abriu gradualmente as fronteiras entre os países da UE, o controle de imigração cabe ao primeiro país europeu aonde chegam os estrangeiros. A partir daí, os passageiros dos vôos que vêm de países europeus não passam por controle de imigração.   A partir de novembro de 2006, a UE enrijeceu o controle da chegada nos aeroportos, para conter o número de imigrantes ilegais. Na delegacia de imigração do aeroporto em Madri, funcionários de outros países europeus acompanham o trabalho dos espanhóis.   No dia 9 de fevereiro, a estudante Patrícia Magalhães, que faz mestrado no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, teve a entrada recusada em Madri, apesar de só pretender fazer uma conexão para Lisboa, onde apresentaria um trabalho numa conferência internacional. Mesmo mostrando aos policiais o seu trabalho e o seu nome impresso no cartaz da conferência, eles a deportaram de volta ao Brasil.   O chanceler Celso Amorim passou o Carnaval em Madri, e aproveitou para se reunir com Moratinos e queixar-se do problema. Parece que não surtiu resultados.

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