Especialista compara furto de obras de arte a seqüestro

Entrevista[br]Edward Dolnick: Expert em roubos de peças artísticas[br]Para autor de livro sobre recuperação de ?O Grito?, de Munch, muitas pinturas são destruídas por ladrões que não obtêm resgate

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2008 | 00h00

No mundo do crime contra obras de arte nem todos são Thomas Crown, aquele requintado ladrão que fez muito sucesso no cinema na pele de Steve McQueen e, depois, na de Pierce Brosnan. Alguns são amadores e acabam atrás das grades, como os do Masp. Pouco antes de serem recuperadas as telas de Picasso e Portinari do museu, o Estado falou com o americano Edward Dolnick, um dos maiores especialista em roubos de obras de arte. Ele é o autor de O Grito Roubado, livro lançado aqui pela Editora Relume Dumará (260 páginas, R$ 39,90). Nele, o veterano jornalista acompanha a trajetória do detetive Charley Hill, que conseguiu recuperar a obra-prima do pintor norueguês Edward Munch, O Grito, roubada em fevereiro de 1994 da Galeria Nacional de Oslo. Na entrevista ao Estado, Dolnick lamentava ser quase impossível o resgate dessas duas obras-primas, argumentando que nove entre dez obras de arte de fama mundial roubadas nunca mais são encontradas. Segundo o jornalista, várias obras-primas já foram roubadas e destruídas por ladrões que não conseguiram o dinheiro do resgate ou viraram moeda de troca nas mãos de traficantes internacionais, provável destino da maioria das obras. O que acontece, de modo geral, com as obras-primas roubadas de museus?Quando uma pintura é roubada, permanece roubada. De modo geral, é o que acontece a nove entre dez obras de arte. Elas nunca mais são encontradas. No entanto, há duas coisas que desencorajam os ladrões: quanto mais famosa é a obra, mais chances tem de ser recuperada, considerando que ela é mais difícil de ser vendida; em segundo lugar, ladrões de obras de arte têm de ser mais pacientes e trabalhar com um período dilatado de tempo. As telas não são como carros roubados, embora mantenham seu valor por muito mais anos.Por que o sistema de segurança de museus importantes é tão precário? Até mesmo em Oslo os ladrões só precisaram de uma escada para roubar ?O Grito?...A segurança dos museus tende a ser precária porque eles enfrentam o dilema de tornar acessíveis ao público essas obras de arte. Segurança custa caro e os museus de todo o mundo enfrentam, hoje, problemas de caixa, embora um sistema de segurança funcional não custe tão caro assim.Os maiores ladrões de obras de arte estão, hoje, associados a traficantes de drogas. Essa é uma tendência, a de pedir resgate por elas?O furto de uma obra de arte é como um seqüestro, com a vantagem de que não há perigo da vítima escapar ou pedir socorro. Quando há muito silêncio sobre o roubo é porque os ladrões não sabem o que fazer com seu troféu. Geralmente, eles roubam obras de arte porque é mais fácil e por serem valiosas, mas isso não significa que encontrarão com facilidade um comprador. Quando isso não acontece, eles entregam os quadros para traficantes em troca de drogas. Esses ladrões são como os cães que perseguem carros: não sabem o que fazer quando eles param.Mudou, então, o perfil dos ladrões de obras de arte?Ladrões roubam grandes telas por diversas razões, entre elas a de se mostrar para seus comparsas, exibindo seu troféu. Muitos pensam ingenuamente que vão encontrar rapidamente um comprador, porque esses ladrões são os maiores otimistas da face da Terra. Quando não acham, capitulam e entregam o produto do roubo a traficantes, que alimentam o círculo vicioso: os novos proprietários enchem-se de otimismo. Por que alguns casos de furto nunca são esclarecidos e as obras jamais são recuperadas?Porque a polícia, em todo o mundo, não demonstra muito interesse. Ela tem outros crimes com que se preocupar, especialmente os que envolvem vítimas. Na ausência de esquadrão especializado em roubos de obras de arte, os policiais adotam as estratégias convencionais, colocando seus informantes para trabalhar até que alguém, finalmente, dê com a língua nos dentes.

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