Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

Especialistas apontam caminhos para a integração entre transporte público e aplicativos

Tema foi discutido no segundo dia do Summit Mobilidade Urbana 2022; desafio é racionalizar logística de deslocamento nas grandes capitais

Laila Nery, especial para o Estadão

17 de maio de 2022 | 20h20
Atualizado 19 de maio de 2022 | 15h51

A integração dos transportes públicos e aplicativos foi o principal tema do segundo dia de discussões do Summit Mobilidade Urbana 2022, nesta terça-feira, 17. Com a alta nos preços dos combustíveis e as diversas ideias e soluções tecnológicas, especialistas na área se reuniram para um debate sobre as transformações do transporte público e quais impactos essas soluções podem gerar na emissão de carbono.

Para o professor Ciro Biderman, especialista em administração pública, da Fundação Getulio Vargas (FGV), entrar a fundo em políticas complexas de transporte, que se relacionem entre si, é a saída para reduzir o transporte individual, os acidentes, as emissões de carbono e melhorar a qualidade do transporte público para a população que mora nas periferias. A ideia é racionalizar a logística de deslocamento nas grandes capitais. Para ele, os aplicativos têm a sua função, os ônibus elétricos também e cada estratégia precisa ser integrada ao sistema de transporte como um todo, para que os problemas de mobilidade sejam minimizados.

“Parece surpresa, mas a tecnologia sozinha não resolve, não chega lá. A mobilidade está mudando, a gente tem como aproveitar isso e diminuir radicalmente as emissões, melhorando as condições de transporte público e, consequentemente, as condições de vida das pessoas, mas não é fazendo políticas simplistas. Temos que ter coragem para fazer políticas profundas”, afirma o professor. 

A especialista em políticas públicas de mobilidade urbana do aplicativo de transporte 99, Carolina Guimarães, confirma a ideia. Segundo ela, um ponto interessante a ser observado é que a população que mora nas periferias tem consumido cada vez mais o transporte por aplicativo.

Dados da 99 mostram que, em fevereiro de 2020, 54% das corridas por esse aplicativo eram feitas em bairros periféricos. Em fevereiro de 2021, o dado saltou para 67% das corridas e a tendência é que os números continuem crescendo.

“O usuário da 99 é multimodal, ele usa vários meios de transportes. Hoje, 7% das viagens da 99 já são integradas com o transporte coletivo na região metropolitana de São Paulo, o que fomenta a ideia de que o aplicativo gera valor agregado nas cidades”, conta Carolina.

Para a especialista, a integração entre aplicativos e transporte público é uma saída para melhorar  o índice de acesso à cidade da população mais pobre. Ela acredita que, com a otimização do transporte, as pessoas conseguem, inclusive, ter acesso com mais facilidade a direitos básicos, como saúde e educação, mais rapidamente e deixam de enxergar o deslocamento para melhores vagas de trabalho como um desafio, por exemplo. “O acesso a oportunidades é diferente. Para chegar ao centro de São Paulo, por exemplo, uma pessoa quer integrar os transportes. Sem melhorias na mobilidade, muita gente desiste de chegar a locais com boas ofertas de emprego.”

5G deve revolucionar a mobilidade 

No Brasil, o 5G deve começar a chegar nas principais capitais ainda no segundo semestre de 2022, de acordo com o leilão da Anatel. Os especialistas acreditam que a velocidade do 5G deve revolucionar a forma como o transporte funciona, principalmente por conta da possibilidade de comunicação entre veículos e a infraestrutura das cidades. 

Para Marcelo Pereira, diretor de desenvolvimento de mobilidade para a Ipsos no Brasil, o 5G vai trazer uma interconectividade entre as pessoas, a infraestrutura das ruas e os veículos de transporte, revolucionando a forma como o deslocamento acontece. “Um veículo quando conectado a outro veículo pode trocar informações sobre o trânsito e identificar acidentes, necessidades de mudanças no trânsito, sinalizações de interrupções na via. Nesse cenário, a utilização da internet dentro do carro também modifica a infraestrutura das ruas e isso impacta no tempo de abertura e fechamento dos semáforos, vagas de estacionamento e movimentações de ambulâncias, por exemplo. O 5G abre um horizonte promissor para um deslocamento mais assertivo."

No momento, o maior impacto do 5G na mobilidade se dá nas indústrias automobilísticas. Segundo Djan Castro, gerente de tecnologia da Stellantis, no momento, a indústria já vive essa realidade. Um exemplo disso é a utilização das redes 5G privadas, como a que vem sendo utilizada pela Jeep.

“Os primeiros casos de 5G foram feitos em cima de algoritmos, porque temos um tema de resposta mais rápido, na tomada de decisões. O potencial tecnológico do 5G vai ser mais explorado quando os carros tiverem mais câmeras e sensores e isso possa ser utilizado fora do ambiente industrial. Isso possibilita que os carros reconheçam as placas de trânsito, por exemplo. Os protocolos do 5G permitem um alto número de dispositivos conectados e é isso que faz toda a diferença”, explica o especialista.  

Georgia Sbrana, diretora de vendas B2B Latam da Motorola Mobility, defende que a tecnologia 5G nas indústrias brasileiras melhora o tempo de resposta dentro dos ecossistemas, possibilitando que toda a cidade esteja conectada e isso já é real. 

“Os aparelhos smartphones estão prontos para o 5G e essa tecnologia precisa ser democratizada para que a população possa experimentar essas realidades”, afirma a diretora de vendas.  

Vitor Magnani, presidente da Associação Brasileira Online to Offline, acredita que o 5G ainda irá facilitar a compra e reparo dos veículos diretamente das fábricas, graças à facilidade no tráfego das informações e revolucionar a indústria. Ele defende que o Brasil precisa correr contra o tempo para implementar a tecnologia, já que a instalação das antenas é de responsabilidade municipal. Por conta disso, cidades do interior do País podem esperar por mais tempo, até a chegada da tecnologia.

“Apesar do leilão da Anatel e da lei geral de antenas, os municípios são responsáveis pelo ordenamento urbano e isso pode impactar na chegada do 5G. Principalmente para quem mora em rincões do País vai demorar um pouquinho para ter de maneira massificada o 5G em sua plenitude”, defende Vitor.

 

Com bilhete digital, Rio de Janeiro deixará de receber dinheiro físico nos ônibus

A gestora da Secretaria Municipal de Transportes do Rio de Janeiro, Maína Celidonio de Campos, apresentou nesta terça-feira, 17, o projeto de inovação para mobilidade no Rio. Ela contou que, em uma semana, a cidade irá abrir licitação para a nova empresa responsável pelo transporte público.

A principal mudança acontece na bilhetagem digital, que com a utilização de diferentes formas de pagamento, como bilhete único, cartões bancários, celular, Pix, QR code, irão deixar de lado o pagamento em espécie.

“Um problema que enfrentamos agora é um sistema onde os operadores do transporte fazem a bilhetagem. A base de dados não é auditada e não temos certeza da receita do sistema. É complicado. Temos uma baixa capacidade de controle do dinheiro que entra. Cerca de 17% das passagens ainda são recebidas em dinheiro físico”, contou a secretária. 

A ideia é que as diferentes possibilidades de pagamento tornem a política tarifária mais atrativa para os passageiros, já que, segundo Maína, boa parte dos brasileiros têm facilidade com pagamentos através do celular.   

Outra mudança é no valor da tarifa, que deve começar a variar de acordo com o trajeto do passageiro. O pagamento passa a levar em consideração a quantidade de quilômetros rodados. “Quando a gente paga por passageiro, a gente gera incentivos perversos para a mobilidade, como ônibus superlotados e a competição entre os modais. Queremos que o pagamento por quilômetro quebre essa lógica e isso só será possível se o poder público se apropriar da receita e ter o sistema de bilhetagem sob o seu controle.”

Aplicativos de transporte defendem a integração com o transporte público

Numa conversa sobre como os aplicativos e soluções online têm gerado soluções para a mobilidade, representantes da Buser, Blablacar, Associação Brasileira dos Fretadores Colaborativos (Abrafrec) e Clickbus contaram como isso já acontece nos aplicativos e pode ser utilizado para otimizar o transporte interurbano. 

Para Marcelo Nunes, presidente da Abrafrec, as inovações já tem acontecido em largas escalas. “A interação entre os transportes está cada vez mais rápida no mundo e o Brasil está se adequando para isso, com dois cliques você consegue embarcar, fazer uma viagem e escolhe através da internet qual a melhor tarifa, o consumidor optou pela integração antes que o governo pensasse nisso”.

Frédéric Ollier, vice-presidente Latam da unidade de ônibus da Blablacar, defende que o Brasil tem uma busca por viagens ainda com muito espaço para crescer. O Blablacar é um sistema de caronas pensado para minimizar as reduções de carbono, desenvolvido na França e implementado no Brasil através do sudeste, o aplicativo tem ampliado o investimento em regiões estratégicas, como o nordeste. Para ele, o potencial de crescimento é gigantesco. 

“Temos dois pontos na Blablacar: a urgência por viagens e as mudanças climáticas no mundo. O serviço de carona é um modelo que cresce 90% em relação à 2019. Queremos ter todas as opções de viagens na nossa plataforma, alavancando a nossa base de carona. Inovação para a gente é multimodalidade e oferecer todas as opções para o passageiro em um único lugar”, conta. 

Os especialistas defendem que os ônibus têm um papel fundamental tanto na integração dos serviços, quanto na redução da emissão de gases e, com a quantidade de veículos presentes hoje nas ruas, a capacidade de caronas em viagens interurbanas é enorme, mas ainda não é otimizada, por conta da falta de incentivo governamental para o uso de transporte compartilhado.

Marcelo Abritta, CEO da Buser, defende que essa otimização só traz benefícios e é completamente viável, num país onde as pessoas valorizam o descanso nos finais de semana. Para ele, se as viagens de ônibus se tornarem confortáveis para os passageiros, a tendência é que a procura aumente.

“Quando usamos os veículos em sua capacidade máxima, reduzimos a quantidade de veículos nas ruas, conseguimos ser mais econômicos para o passageiro, viável para o operador e ainda beneficiamos o meio ambiente. No Brasil, vemos o trânsito no final de semana. É sempre superlotado. As pessoas buscam o litoral, por exemplo, em São Paulo, não usamos ônibus, mas os automóveis. Precisamos que os ônibus sejam mais importantes nas vidas das pessoas”, conta o engenheiro.

Quando Phillip Klien, CEO da Clickbus fundou a plataforma de compras de passagens, ele pensou no conforto dos passageiros que tinham que ir até as rodoviárias para adquirir uma passagem de ônibus. “Há oito anos, só 2% das passagens de ônibus eram compradas através da internet. Na pré-pandemia essa demanda já era 40% . Temos que trazer benefícios para esse modal, como conforto, preço e segurança. A utilização dos ônibus, se otimizada, vai melhorar o deslocamento para toda a população”. 

 

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