Especialistas: pacote só vale com fiscalização

A proposta do Ministério da Justiça de reduzir o limite de presença de álcool no sangue dos motoristas - do atual 0,6 grama por litro para 0,3 - é vista com um misto de entusiasmo e desconfiança por especialistas em medicina de trânsito e toxicologia. Apesar de apoiarem a medida, eles dizem que o endurecimento das leis deve vir acompanhado de maior e melhor fiscalização, além de treinamento dos agentes.O presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Flávio Adura, explica que a ingestão de um copo de cerveja, por exemplo, tem efeitos diferentes em cada tipo de indivíduo, variando conforme a compleição física de cada um. "Entre as novas medidas, a diminuição do limite de dosagem alcoólica terá resultados positivos, mas, ainda assim, deixa espaço para que motoristas dirijam sob o efeito do álcool. Defendemos que o limite permitido seja zero", disse Adura.Para o médico, "aumentar a punição e imputar sobre o motorista que dirige embriagado - ou que pratica racha - também é um fator muito positivo. O fato de crimes como esses, que podem colocar em risco a vida do próprio motorista e também dos que estão a sua volta, deve ser visto como um grave atentado à vida e punida com todo o rigor necessário."A professora de Medicina Legal da Universidade de São Paulo (USP) e perita em toxicologia Vilma Leyton diz que a tendência mundial é a adoção do limite de 0,5 grama de álcool por litro de sangue. "A variação ainda é grande. Na Polônia, por exemplo, o índice permitido é de 0,2 g/l, ao passo que, nos Estados Unidos, alguns Estados estabeleceram 0,8 g/l." Segundo ela, há diferentes interpretações para o que os médicos chamam de alcoolemia - relação entre a quantidade de álcool ingerido e seus reflexos no corpo humano. Para alguns autores, os sinais clínicos e sintomas da embriaguez só aparecem a partir de 0,5 g/l. Outro dizem ser possível notar transtornos clínicos com a ingestão de 0,1 g/l.É consenso que uma lata ou copo grande de cerveja com graduação alcoólica média de 3% contém 9 gramas de álcool. Misturado ao sangue, esse volume representa 0,3 g/l, o suficiente para atingir o limite máximo proposto pelo governo federal. Numa comparação genérica, uma lata de cerveja equivale a uma taça de vinho (de 200 ml) ou um cálice (60 ml) de vodca, uísque ou pinga.O pacote de mudanças nas leis de trânsito também agradou aos magistrados. como o desembargador do Tribunal de Justiça e presidente da Associação Paulista de Magistrados, Henrique Nelson Calandra. Mas ele alertou: "Não é possível imaginar que a simples mudança das leis vai implicar redução das mortes no trânsito. É preciso garantir que elas sejam aplicadas com rapidez." Calandra propõe a criação de cortes de trânsito, nos moldes do que é feito nos EUA. "É fundamental que Executivo e Legislativo dêem aos Estados condições de aplicar a lei."

Bruno Tavares e Eduardo Reina, O Estadao de S.Paulo

01 de fevereiro de 2008 | 00h00

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