AP Photo/Felipe Dana
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Especialistas se dividem quanto a ‘novo Carandiru’

Trágico exemplo tem sido apontado com frequência por autoridades ao falar das razões para evitar uma tentativa de retomada do controle da cadeia

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2017 | 00h14

O "fantasma" do massacre na Casa de Detenção do Carandiru, que deixou 111 mortos em 2 de outubro de 1992, paira sobre a Penitenciária Estadual de Alcaçuz, na Grande Natal, a cerca de 3 mil quilômetros da extinta unidade prisional da zona norte de São Paulo. O trágico exemplo tem sido apontado com frequência por autoridades da administração potiguar ao falar das razões para evitar uma tentativa de retomada do controle da cadeia, que está rebelada há sete dias. Nesse período, mais de 26 pessoas morreram em crimes cometidos por outros detentos e batalhas campais, com instalação de barricadas, demonstram a fragilidade da atuação estatal.

Especialistas ouvidos pelo Estado ressaltam a dificuldade de uma operação de retomada de controle no presídio, mas ponderam que a prudência pode se transformar em omissão diante da continuidade do motim que não tem prazo para ser encerrado no local. Desde o sábado passado, os batalhões de Choque e de Operações Especiais (Bope) entraram na cadeia mais de três vezes, realizando revistas e retirando presos para transferências. As operações, no entanto, não se estenderam por mais de cinco horas em nenhuma das oportunidades. Logo que os homens de preto deixaram a unidade, a rebelião foi retomada.

Para o ex-secretário nacional de Segurança Ricardo Balestreri, que mora em Natal, a preocupação em não repetir o Carandiru não é um argumento válido para permitir a continuidade da rebelião. "Há uma linha tênue entre precaução e omissão. O argumento de repetir o Carandiru é uma asneira porque nele você admite que não aprendeu nada com o que aconteceu lá. Não é para entrar para fazer fuzilaria, mas sim para contenção", disse. 

Ele sustentou que a falta de ação tem passado uma mensagem clara às facções. "O Estado admitir o medo é uma constatação de que não preparou bem suas forças de segurança. A interpretação passada aos criminosos é que há uma fragilidade e que, diante do Estado omisso, eles podem continuar no controle", disse. 

O major Wellington Camilo, comandante do policiamento das guaritas, havia citado a pouca luminosidade no momento inicial da rebelião para justificar a falta de ação policial no interior da cadeia. O dia amanheceu, a corporação interveio, o que permitiu a contagem inicial de 26 mortos. De lá para cá, apesar de confirmar novos mortos no conflito da quinta-feira, a administração não estima em quanto o número de vítimas aumentou. Fazer essa nova contagem pressupõe, segundo o comando da PM, entrar novamente e controlar, ainda que momentaneamente a unidade, coisa que ainda não ocorreu. 

O governado fala que a prioridade é evitar fugas em massa e para isso mantém com ocupação total as dez guaritas do presídio. É de lá que costumam partir a intervenção mais efetiva da administração com os disparos de armamento não letal visando a impedir os avanços das facções no território para eventual conflito. 

Para demonstrar força, disse o coronel Sérgio Roberto de Abreu, ex-comandante da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, é preciso deslocar grande efetivo e mostrar que de fato as chances de domínio por parte do governo são bem maiores, de forma que os rebelados se rendam ou entreguem o armamento que sugerem possuir. 

"A própria presença da PM já cria uma ideia de superioridade, abrindo as possibilidades de negociação", disse. Para o oficial, a PM deveria estender suas operações no local não com objetivo de enfrentamento e sim para encontrar uma saída pacífica para a situação. "Com certeza não é uma operação fácil até que se consiga dominar totalmente a unidade. Mas é preciso ir avançando pouco a pouco e quando não há nenhuma estrutura de força dentro isso já fica bastante fragilizado." 

Ele avaliou que uma semana seria tempo suficiente para adotar medidas padrão para esses casos. "É de fato um trabalho de paciência, mas o período de sete dias já é bastante prolongado", disse. 

Já o coronel Severo Augusto da Silva Neto, da Polícia Militar de Minas e ex-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança, adotou a linha da cautela e, assim como o governo do Estado, usa o argumento do Carandiru para sustentar a dificuldade da operação. "Você há de convir que se o uso da força não for gerenciado adequadamente, isso pode levar a um novo Carandiru. Há notícias de detentos armados, dentro de uma estrutura que não oferece nenhuma segurança. O enfrentamento não é uma boa saída", disse.

Para ele, a solução passa pela retirada de parte dos presos para reforma dos pavilhões, de modo que eles possam ser devolvidos e trancados nas celas. "Caso contrário, vai precisar ter um policial na porta de cada cela, o que certamente é inviável diante de outros problemas de segurança que o Estado vive. Entrar no presídio pode significar se tornar protagonista de uma nova tragédia", disse.

O coronel reconhece que a solução de retirada dos presos esbarra nas estruturas das demais unidades prisionais do Estado. O Rio Grande do Norte tem 7,4 mil presos em regime fechado ou semiaberto e acumula um déficit de 3,5 mil vagas. "Vai tirar e colocar onde? Não há outros estabelecimentos e é preciso buscar soluções com outros poderes e com o governo federal", completou. 

 

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