Especialistas temem falta de pilotos de avião em 2008

Redução de exigência de horas voadas para que piloto possa pilotar seria uma das saídas para esse déficit

Alberto Komatsu, do Estadão,

20 Julho 2007 | 21h39

As deficiências na infra-estrutura do setor aéreo, em contraste com o crescimento de dois dígitos no fluxo de passageiros transportados, trazem mais um desafio para as companhias aéreas: especialistas temem a falta de pilotos, que poderia ocorrer já no ano que vem. Isso porque o número de novos profissionais formados a cada ano não atende à necessidade de mão-de-obra gerada pela crescente aquisição de aeronaves.   Lista de vítimas do acidente do vôo 3054  O local do acidente  Quem são as vítimas do vôo 3054  Histórias das vítimas do acidente da TAM  Galeria de fotos  Opine: o que deve ser feito com Congonhas?  Cronologia da crise aérea  Acidentes em Congonhas  Vídeos do acidente  Tudo sobre o acidente do vôo 3054  A presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziella Baggio, lembra que só este ano as principais empresas aéreas nacionais devem acrescentar 34 aeronaves em suas frotas. Segundo ela, de julho do ano passado até o final de março deste ano, em torno de 2.500 aeronautas (pilotos e comissários) entraram no mercado. Outros 2.700 profissionais deverão ser contratados até o final deste ano. Graziella, no entanto, estima que são formados apenas 150 pilotos anualmente. "É difícil afirmar que haverá falta de pilotos no ano que vem, mas há um risco", diz Graziella. "Eu acredito que vai haver falta de pilotos a partir do final de 2008", acrescentou o diretor da Faculdade de Ciências Aeronáuticas (Faca), da PUC-RS, Elones Fernando Ribeiro. "Eu penso que se o crescimento da demanda do setor aéreo se mantiver em 15% ou 20%, ao ano, logo, logo teremos problemas de mão-de-obra", completa o coordenador do Núcleo de Estudos em Competição e Regulação do Setor Aéreo (Nectar), Alessandro Oliveira. Ribeiro disse que algumas companhias aéreas estudam reduzir a exigência de horas voadas para o piloto poder trabalhar nas companhias. Segundo ele, essa poderia ser uma alternativa para atender a demanda por pilotos. Na Europa, o especialista lembra que essa diminuição da exigência de horas voadas já foi implementada. O professor da PUC-RS conta que na TAM, por exemplo, a exigência é de 1.500 horas voadas, enquanto na Gol a exigência é de 1.000 horas voadas.  "Menos horas voadas não significa menos experiência. Tem muito gente que fala que tem duas mil horas voadas, mas que foram acumuladas em aviões pequenos e monomotores", afirma Ribeiro. Ele lembra que os atuais aviões requerem muito mais conhecimento tecnológico. "Hoje em dia tem que saber gerenciar o equipamento de bordo", acrescenta. O sindicato dos aeronautas defende a criação de uma universidade pública para a formação de pilotos, antiga reivindicação dos trabalhadores do setor aéreo. De acordo com Graziella, o governo analisa projetos nesse sentido, como o de um convênio com faculdades privadas no qual o Estado bancaria parte dos custos. Essas seriam algumas das alternativas para aumentar o número de pilotos formados a cada ano, já que o custo, conta Graziella, é proibitivo. Ela estima que os gastos totais para a formação de um piloto podem chegar a R$ 200 mil, considerando-se 200 a 300 horas de experiência. No Centro de Treinamento de Operações da Varig, cada hora de treinamento em um simulador de vôo de aeronaves de grande porte pode custar até US$ 450. Ribeiro concorda que os custos para a formação de mão-de-obra são muito altos. A mensalidade de seu curso custa R$ 1.400 e dura três anos. "É o curso mais caro do Brasil", reconhece. segundo ele, o principal motivo da carência de profissionais foi o desinteresse pela carreira gerada pela crise aérea global a partir dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Este ano, a Faca já formou 40 pilotos. O professor Ribeiro diz que poderá voltar a fazer dois vestibulares por ano, como acontecia em meados de 2000, cada um com 60 vagas. Isso só acontecerá se o crescimento da demanda de pilotos continuar aquecida.

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