Esquadrão da morte é investigado em Guarulhos

A busca das famílias de DorivalRenê Savioli, de 26 anos, e Adriano Holanda Cavalcanti, de 18,durou quatro dias. Eles não estavam em nenhuma prisão, hospitalou posto do Instituto Médico-Legal, apesar de terem sido vistospela última vez, segundo testemunhas, sendo detidos porpoliciais militares. Um telefonema anônimo à polícia acabou como mistério à tarde: os corpos foram encontrados nus, comtiros na cabeça e em decomposição na Estrada Itaverava, nobairro Capelinha, em Guarulhos (SP). Mais um crime - o 16.º com um total de 21 vítimas -praticado por um esquadrão da morte formado por PMs daquelacidade? Essa é a principal hipótese com a qual a trabalham aPolícia Civil, a Corregedoria da PM e Ministério Público. As investigações, iniciadas há um ano, apontam para umgrupo de oito a dez suspeitos. Por causa da descoberta doscorpos de Savioli e Cavalcanti, a Corregedoria da PM apreendeuontem 20 armas de policiais suspeitos e quatro carros do 31.ºbatalhão da PM, para que sejam analisados por peritos doInstituto de Criminalística (IC) de São Paulo. Eles devem buscar indícios que possam ligar os suspeitosao duplo assassinato. Além disso, o setor de homicídios daDelegacia Seccional Guarulhos ouviu o depoimento de JoséFlorêncio da Silva, de 31 anos, que teria sido detido comCavalcanti e Savioli. Silva foi preso em flagrante por PMs quando tentavaassaltar uma fábrica na Avenida Venturosa, no Jardim Cumbica, nodia 9. Na apuração coordenada pelo delegado João Roque Américo,da Delegacia Seccional de Guarulhos, duas testemunhas relataramque cinco homens participaram do assalto. Um fugiu e quatroforam detidos pelos policiais militares. Segundo as testemunhas, só um dos quatro, Silva, foireconhecido pelas vítimas do assalto e levado pelos PMs ao 4.ºDP de Guarulhos, onde foi autuado em flagrante. Um outro foidespido e, após ser espancado, mandado embora pelos policiais.Savioli e Cavalcanti permaneceram com os PMs, que nãoapresentaram os dois detidos em nenhuma das dez delegacias dacidade. Após o telefonema anônimo, policiais civis encontraramos corpos no local indicado. Eles foram reconhecidos por causade duas tatuagens que Savioli tinha - uma com o rosto do cantorRaul Seixas e outra em forma de caveira. Um primo de Saviolitambém reconheceu as vítimas. Em seu depoimento à Polícia Civil, Silva negou a versãoapresentada pelas testemunhas. Negou até mesmo que tivesseparticipado da tentativa de roubo, embora tenha sido reconhecidopelas vítimas. Afirmou não conhecer Savioli e Cavalcanti, masadmitiu conhecer com o homem que, segundo as testemunhas, foiespancado e solto em seguida pelos PMs. O tenente-coronel Eliseu Leite de Moraes, chefe daComunicação Social da PM, afirmou que vários policiais daforça-tática do 31.º Batalhão já foram ouvidos pela corregedoriapor causa das mortes de Savioli e Cavalcanti. Ele disse que tudoestá sendo apurado, "pois a PM não compactua com desvios deconduta". Moraes advertiu que é necessário cuidado, "pois asituação ainda não está clara". Além de policiais do 31.º Batalhão, há suspeitas contraintegrantes do 15.º Batalhão - os batalhões dividem a tarefa depatrulhar Guarulhos. Hoje, a Comissão de Direitos Humanos daCâmara Federal destacou o deputado Orlando Fantazzini (PT-SP)para acompanhar as investigações.

Agencia Estado,

13 de março de 2003 | 21h18

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